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Conselhos de Higiene. Separata do Boletim da CP

Carlos_04As preocupações com a higiene, a saúde e a segurança dos seus trabalhadores foram, desde os primórdios das companhias ferroviárias, constantes. No contexto de trabalho o Regulamento de cada atividade específica as que lhe são próprias e prevê, igualmente, as penalizações para o incumprimento. Fora do serviço são exemplo dessas preocupações, a criação dos Serviços de Saúde, as tipologias das habitações, a criação dos Armazéns de Víveres e das Cantinas.  Não admira, pois, que em 1933, o Boletim da CP – publicação dedicada a informação e à formação do pessoal – editasse, em formato de separata, os Conselhos de Higiene.

Não se pense, contudo, que a iniciativa nasce do genuíno altruísmo,  dos dirigentes. Surge da necessidade de evitar as baixas por doença de pessoal altamente qualificado e de difícil de substituição. A dureza das condições de trabalho, associadas à falta de residências com o mínimo de salubridade, à carência de abastecimento de produtos alimentares em muitas estações e as novas sociabilidades, muitas vezes associadas a práticas pouco saudáveis e mesmo de risco, levaram as Companhias a desenvolver políticas sociais muito ativas. Eram feitas com afetação de receitas próprias e, em muitos casos, comparticipadas pelos trabalhadores.

Este pequeno livro, em formato de bolso, com 150 páginas, foi distribuído a todos os trabalhadores que recebiam o Boletim da CP – e eram a grande maioria –  segue a seguinte estrutura:

- Generalidades
- Higiene corporal
- Higiene da habitação
- Higiene do vestuário
- Higiene da alimentação
- Higiene profissional

- Defesa das doenças contagiosas.

As generalidades servem de introdução ao texto que, numa linguagem muito acessível e pedagógica, explica  a origem e os perigos da maleita para, de seguida, apontar a profilaxia.

Hoje, tudo nos surge tão distante e tão  primário que é impossível não sorrir perante tais conselhos e práticas. É, no entanto, um importante fonte secundária para a percepção das doenças que afetavam os profissionais dos caminhos de ferro e para o conhecimento do seu quotidiano. Descodificando. A descrição pormenorizada de como se deveriam processar determinados gestos de limpeza do corpo, dá-nos a percepção da falta de hábitos de higiene. A abordagem feita ao alcoolismo mostra-nos, por exemplo, que o matar do bicho consistia na ingestão de bebidas brancas logo pela manhã , muitas vezes em jejum, e que esta era uma prática muito vulgarizada.  E muitos outros exemplos poderíamos apontar.

Conselhos de Higiene é, sobretudo, um documento que funciona como um retrato coletivo de alguns hábitos do pessoal dos caminhos de ferro – e estamos em crer de todo o país – na década de 30 do século XX.

autor: Carlos Barbosa Ferreira