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TrainSpotter nº44

João Lourenço assina o editorial da Trainspotter nº44 de Abril de 2014.

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Nesta época de crise, em que a austeridade atingiu de uma forma transversal todos os sectores dos transportes, o ferroviário não foi excepção e todos aqueles que gostamos de comboios temo-nos vindo a habituar nos últimos anos a um panorama monótono e mesmo cinzentão, com notícias que quando aparecem são quase sempre más.

Por isso, é com imensa alegria que registamos este mês a notícia de algo bem feito em Portugal e que em contraciclo vem alegrar um pouco a nossa ferrovia: o aparecimento em circulação do Comboio Presidencial. Mais uma vez se prova que em Portugal, quando queremos e nos opomos, somos capazes do melhor. Com um trabalho notável, EMEF e MNF conseguiram restaurar a composição de forma bastante fiel e com enorme qualidade. E como os comboios foram feitos para andar, saúda-se a ambiciosa ideia de, desde o início, deixar o Presidencial em condições de circulação com o objectivo de fazer passeios turísticos.

Mesmo em época de crise, em que apertar o cinto, independentemente da ideologia política, é uma necessidade a que não se consegue fugir, há mínimos que não se podem ultrapassar. A conservação do nosso património é uma dessas coisas. Tal como um castelo, ou uma igreja, que ninguém coloca em causa a necessidade da sua preservação, também no nosso panorama ferroviário abundam alguns activos, seja material circulante ou infraestruturas, que pelo seu valor histórico, não podem ser deixados a apodrecer e a diluir-se nos anos da história. É pois de manifesta importância a tarefa do Museu Nacional Ferroviário, não só de forma activa na recuperação de material deixado ao abandono, mas também, agindo atempadamente na sua preservação, evitando que se deteriore e tornando mais fáceis possíveis trabalhos de restauro.

Somos um país pobre, o dinheiro não chega para preservar tudo (nem tal se justificaria) e este trabalho brutal de preservação ferroviária tem que ser feito com apoio e ajuda externa, incluindo de nós, apreciadores de comboios. É por isso de saludar a abertura que o MNF está a demonstrar na sua relação com os entusiastas. Neste número da Trainspotter viajamos a bordo do comboio Presidencial guiados pela reportagem do João Morgado.

Entretanto, é quase sem surpresa que recebemos este mês a notícia do alargamento do aluguer de mais material circulante a Espanha. Num país quase isolado pela bitola, em que o material circulante a diesel sempre foi o parente pobre e já não tem produção própria, outra coisa não seria de esperar. Continuar a electrificar linhas sem que o seu tráfego o justifique, apenas para adaptar ao material circulante eléctrico que abunda, já não era solução. Quando ainda havia (ou se conseguia arranjar) dinheiro para renovar a frota de automotoras, essencialmente para o serviço Regional, estalou esta crise brutal e comprar novo deixou de ser solução para os próximos (muitos) anos. Com as Allan bem para lá da sua vida útil, as UDD 0450 não chegam para tudo e no mercado ferroviário não existe outra opção viável. Temos a sorte de o nosso país vizinho, apostando a sério na ferrovia, estar a renovar a frota de uma forma incrível e deixar disponível em condições de circulação muito material, que embora velho, ainda está bastante utilizável. Caso contrário, nem a Argentina da Europa conseguíamos ser e se calhar estaríamos como alguns países africanos.

Prestando tributo ao nosso riquíssimo património ferroviário, neste número da Trainspotter damos a conhecer as pontes da Ferradosa. Com a ajuda de amáveis contribuições além-fronteiras, desde França mostramos as BB 9300 no seu final de vida e visitamos a história do Ramal de Aveiro nos anos 70. E como sempre, apresentamos as novidades do modelismo, que continua a revelar uma enorme vitalidade. Boa leitura!

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A revista digital TrainSpotter é editada pela equipa do Portugal Ferroviário, o número 44 em .PDF pode ser descarregado AQUI