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Estão a matar a Alma Ferroviária!

  ferromanutencaop   A profissão de Ferroviário sempre teve, ao longo da sua história, facetas muito especiais, criando um espírito peculiar nos seus agentes, bem diferente das demais actividades profissionais. Os Ferroviários vivem o seu trabalho e o casamento com comboios e ferrovia com autêntica paixão, até ao fim das suas existências. Não fiquem chocados com tal circunstância. Quando iniciei a minha vida de ferroviário, ficava espantado quando, nas estações e depósitos, via os maquinistas a limparem com a manga do casacos os amarelos da máquina e os reformados, com o seu lenço tabaqueiro, a fazerem desaparecer possíveis manchas dos anteparos das portas das carruagens, lançando um ar crítico ao pessoal de circulação, possível responsável daquelas faltas. Na verdade, o material ferroviário fazia parte para todo o sempre das suas vidas. Comecei então a compreender melhor a mística dos Caminhos-de-Ferro e a perceber bem o espírito que decorre do romance “Os Velhos”, que na altura deu brado, da autoria do aristocrata ferroviário, D. João da Câmara. E como se deduz claramente, esses bom entendimento, principalmente com o material ferroviário, mantinha-se após a inevitável reforma. Era assim a camaradagem nos caminhos-de-ferro.

     Porém, o centralismo feroz feito na C.P., acabando com as Regiões que operavam com muita menos agentes e com o mínimo de burocracia, veio atenuar e destruir as virtualidades desse espírito, pois deixou de haver uma mediação permanente entre superiores e subalternos, sendo destruída uma certa cumplicidade que ao longo dos anos florescia entre todos os graus da hierarquia, apesar de possíveis injustiças e de situações de compadrio em nomeações, que por vezes aconteciam. E tal centralismo era levado a cabo para não se ver a multidão de funcionários que ocupavam enormes edifícios nas instalações ferroviárias em Lisboa e ninguém sabia em que ocupavam o tempo. Pelo que eu conhecia, passavam o tempo a escrever cartas uns aos outros, sem qualquer utilidade prática, criando permanentes impasses na solução dos problemas operacionais, isto apesar de, por vezes, terem gabinetes no mesmo andar, com portas contíguas. Daí a velha graça revisteira do Parque Mayer, que a população tanto gostava –“Se na C.P. derem cabo de um técnico por dia, por muitos anos ninguém dará conta…!

    Mais tarde, outra grave machadada foi dada no modo de ser ferroviário e que desuniu a família da ferrugem, como era conhecida a colectividade ferroviária. Na verdade, a divisão da empresa dos caminhos de ferro em C.P. e REFER, sem qualquer necessidade, veio duplicar os lugares de chefia e as despesas fixas em relação aos gastos da empresa única anterior, tendo ainda o condão de criar desuniões entre ferroviários que passaram a pertencer a empresas distintas, com objectivos diferente, deixando de haver o espírito de solidariedade e de entre ajuda que, através dos tempos, sempre tinham caracterizado as suas relações laborais.

   Mas, apesar das malfeitorias feitas ao espírito ferroviário, este ia resistindo, perante o continuado centralismo lisboeta, que com ele tentava acabar, pois era considerado incómodo e rebarbativo nas suas contestações e reivindicações.

    Todavia o golpe final foi agora dado. Os Reformados que sempre trabalharam, recebendo menos vencimento do que em outras actividades, para gozarem de um passe de caminho de ferro mesmo após a sua reforma, vêm ser retirada essa sua regalia numa altura da vida em que já não têm condições para se poderem defender eficientemente. E essa situação de impotência vai minar-lhes as entranhas e matar-lhes a Alma. Vão estiolar e murchar como as flores. Nada poderia ser mais brutal do que a retirada do direito de viajarem nos seus comboios, quando têm tempo para o fazer. Um autêntico crime praticado contra gente indefesa.

  Será bom recordar que desde a Ordem da Direcção Geral de 30 de Novembro de 1894, no tempo da Monarquia, começaram a ser dadas regalias aos ferroviários nos transportes de comboio para compensar os vencimentos baixos, os longos horários, o trabalho extraordinário à sobre posse, o excesso de calor e de frio que apanhavam, a ausência permanente do seu agregado família, enfim, a demasia de sacrifícios que a profissão lhes exigia. E as concessões, após a reforma, além de serem um lenitivo para a sua difícil vida, faziam parte de uma das cláusulas do contracto de admissão na empresa. Virem agora o Governo e a Administração tomar decisões sobre esta matéria, com efeito retroactivo, é intolerável e inconstitucional, mais que não seja. Ainda por cima, logo que os reformados não ocupem lugares nas carruagens de primeira e nos comboios mais rápidos, às horas e dias de maior movimento, qual o prejuízo para a empresa? Quando o transporte de um reformado pode prejudicar a venda de um bilhete, ainda se compreende, caso contrário não. Que prejuízo sofre a C.P. e a Refer com os passes dos reformados? Na verdade, estão a ser vítimas de uma autêntica infâmia!!!

   Quando me deslocava de comboio para a Régua, para ir a julgamentos a Lamego, muitos reformados iam até ao Tua, em carruagens onde só eles viajavam, com a desculpa de irem comprar o bom pão lá feito. No fundo, iam encontrar amigos e fazer uma patuscada, gastando os últimos anos de merecido repouso da sua reforma do modo que mais lhes agradava, andar de comboio de um lado para o outro. E tal acontecia e acontece um pouco por toda a parte do Mundo Ferroviário.

   A crueldade agora cometida não tem qualquer justificação, pois as empresas não sofrem prejuízos com o transporte dos reformados, feito com as devidas limitações. Como ferroviário reformado, de que me honro ser, tenho vergonha que alguém considerado responsável tenha procedido desta maneira gratuita e violenta, matando ignobilmente a Alma Ferroviária, sem qualquer proveito para as finanças das empresas e sem qualquer vantagem para a colectividade. É demais.

Ainda por cima, se tivessem legislado apenas para o doravante, ainda se podia compreender, mas tirar direitos adquiridos com disposições retroactivas, só comete tal acto quem tem pouca cabeça e não sabe o que anda a fazer.

 

António Moniz Palme – 2013