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A greve de 70 dias no Sul e Sueste – 1920 – através dos Diários de José António Marques.

Comunicação apresentada à 3ª Sessão “O Mundo do Trabalho na Península de Setúbal”, resultante de investigação ainda em curso, no Arquivo Municipal do Barreiro, sobre um acervo documental constituído por diários manuscritos produzidos por um trabalhador ferroviário, José António Marques (JAM), entre 1918 e 1988.

A importância dos diários é tal que, constituem hoje uma fonte incontornável para o conhecimento da história – em particular do Barreiro – na primeira metade do século XX. Do primeiro caderno diário seleccionei um acontecimento, interessante sob vários pontos de vista, impressionante pelo desfecho que teve, dos quais sublinho 2:

  1. O modo sistemático como JAM o foi descrevendo, num quase registo cinematográfico;
  2. A forma, como tal acontecimento pôs à prova a capacidade de luta e resistência da classe ferroviária

A comunicação baseia-se, em grande parte, na transcrição do testemunho de JAM, e é, portanto, através do seu olhar, por vezes das suas emoções, que podemos acompanhar, diariamente, tudo, ou quase tudo, quanto se passou durante a Greve de 70 dias no Sul e Sueste, em 1920.

No ano em que ele começa os seus Diários, a vila do Barreiro, segundo um Relatório da Comissão Administrativa da Câmara, contava cerca 12.000 habitantes e possuía «além das vastas oficinas dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste e Companhia União Fabril […] perto de 160 estabelecimentos, 4 cordoarias, 3 estaleiros para barcos de cabotagem, 20 fábricas de cortiça, 1 fábrica de conservas, 1 de moagens, além de grandes armazéns de retém [i.e. armazenamento].» (1)

Antes de entrar no tema da greve, lancemos um olhar, ainda que breve, sobre alguns acontecimentos descritos por JAM, que nos remetem, para a conflitualidade social lactente que, se vai acentuando ao longo de 1920.

Em 14 de Janeiro, diz ele que, uns 80 operários abandonaram as Oficinas falando que «arrebentava a greve». No mesmo dia, também, os corticeiros entraram em greve.

Em Fevereiro, no dia 12, o pessoal da CUF também entrou em greve, e a 24, os Caminhos de Ferro do Sul e Sueste (CFSS) estavam novamente em greve. A 26 declarou-se a greve no Minho e Douro.

Em 4 Março, JAM, de serviço em Faro, escrevia:

«Fui à primeira reunião de ferroviários. Na cidade correu o boato que se tinham declarado em greve os correios e telégrafos. Fez um dia lindo e peras e a noite de luar, mas fria, [comentário habitual] Soube que no Barreiro principiou o trabalho, às 14h retirou para Lisboa o Batalhão de SCF. Fez 17 anos a Maria Gertrudes Maurício.» Fl 35v

No dia 5 «Soube-se que por causa da greve caiu o governo.»

No dia 25 Março, a reunião de ferroviários que estava marcada não se realizou, por ter sido proibida. A 27 foram presos Leopoldo Calapez e Manuel Dionísio Júnior, por trazerem consigo exemplares do jornal A Bandeira Vermelha(1) e foram efectuadas buscas às casas de Miguel Correia e António José Piloto.(2)

Em 10 de Abril foi preso pela Polícia Cívica, o Presidente da Associação de Classe, António José Piloto.(3)

Em 14 de Abril, suicidou-se nas Oficinas Gerais um servente de 20 anos. Deixou uma carta, na qual se dizia «cansado da vida e aborrecido com a má organização social», noticia o Sul e Sueste.(4)

Em 5 de Junho, JAM escrevia: «pelas 12h declarou-se em greve o pessoal da construção da linha do Barreiro/Seixal» e, a 18, foi todo o pessoal das linhas do SS.

Em 1 de Julho, segundo JAM, nova greve no SS e a 3 entraram em greve os Caminhos de Ferro do Vouga.

A 4 de Agosto, durante uma reunião de ferroviários no Barreiro, registou-se um tiroteio e, no mesmo dia, foi tomada a Rotunda das Máquinas pela GNR. O Barreiro estava em estado de sítio.

Escreve JAM: «Á noite as ruas são patrulhadas por forças de Cavalaria, Infantaria e GNR, principalmente a Rua Miguel Pais. Quando regressava a casa, mais o Eugénio da Silva, perto da 1 da madrugada, fomos abordados por praças da GNR, que procuraram donde vínhamos. O Sebastião Gomes e o José Pequeno fugiram, para a S. Instrução, por motivo de estarem a fazer experiências com revólveres. Deu resultado a Guarda andar em procura deles.»

No dia 15 de Setembro, realizou-se uma reunião geral de ferroviários, onde foram discutidos, entre outros assuntos, a questão dos vencimentos.

No dia 20 Setembro escrevia ele:

«Principiaram as forças da GNR a guardar os comboios, tanto de passageiros como mercadorias.»

No mesmo dia, Miguel Correia, dirigente da Associação de Classe e outros ferroviários, foram suspensos. Nos dias seguintes o cenário é o mesmo:

«Continuam as forças militares na estação, fazendo-se a partida dos comboios e vapores militarmente» e «no dia 29 pelas 16h, foram tomadas as Oficinas Gerais por forças militares.»

Faremos agora uma pausa no relato de JAM, para dizer que, a causa de tantas greves, segundo o jornal O Sul e Sueste, eram a carestia de vida e a fome(2); por aumentos salariais(3); contra as perseguições e pela readmissão de ferroviários despedidos; a libertação de ferroviários presos e pelo cumprimento da lei das 8 h de trabalho (4)

Chegados ao dia 30 de Setembro de 1920, escreveu JAM «pelas 17 horas, o pessoal do caminho de ferro do Sul e Sueste declarou-se em greve». (Teve início a paralisação que durou 70 dias, terminando a 9 de Dezembro desse ano.)

Nessa noite, conta JAM que, a estação do Barreiro, estava às escuras e parecia um deserto, não se ouvindo sequer o silvo de uma única locomotiva. O silêncio fora interrompido, pelas 22 horas, com a chegada dos tripulantes dos vapores, que terminaram as carreiras em Lisboa e regressavam ao Barreiro, a bordo do catraio do Mariano.

Em 2 de Outubro prosseguia a greve e escrevia JAM: «Chegou mais tropa, para render a que se encontrava já há dias na Estação do Barreiro. Fizeram os militares um comboio, às 18h para Setúbal e a Central Eléctrica já trabalha.

A 3 continuava a greve. «Já há 8 dias que não havia pão no Barreiro. Só [o] apanha quem for às bichas. Pelas 11h40, encalhou em frente da Estação, o vapor Minho, tripulado por marinheiros e praças do exército. Ás 12h40 partiu um comboio, dizia-se que seguiu para Beja. Foram transferidas as Festas do Lavradio, por motivo da greve. Á noite corria o boato [que] andavam a fazer rusgas a casas de ferroviários. Quando cheguei a casa estava a família toda em cuidado.»

No dia 5 a continuação da greve nos CFSS. «Declarou-se, pelas 5 h da madrugada a greve na C. P. Fomos armar aos pássaros, para o Pinhal da Brenha, apanhámos só 3.»

A 7 de Outubro, chegaram mais forças de Infantaria e Cavalaria da GNR, patrulhando as ruas e cercando a Associação dos Ferroviários. Havia perseguições e prisões indiscriminadas, no intuito de obrigar os ferroviários a voltar ao trabalho. Ao «desembarcar do vapor, na estação do Barreiro, foram presos o José Café e o Amadeu Marinho, julgando a GNR tratar-se de maquinistas.

Pelas 19h35 estive mais o Daciano no Mexilhoeiro. Fomos para ao pé dos maquinistas, e fogueiros de terra e mar, e outros ferroviários, que se encontravam junto a uma barraca, a ver os vapores a fazer carreiras de Lisboa a Barreiro. Regressámos a Barreiro, era quase noite. Soube que tinham chegado mais 30 praças de cavalaria da GNR, de Setúbal.

A 9 escreve ele: «Continua-se a efectuar prisões de ferroviários e pondo-se outros em liberdade.

Continuava a greve dos CFSS e a 13 escrevia: «Fui passear ao campo mais o Carlos Sândalo e o Borralho. Saímos do L. Casal até à Quinta Nova do Gandum, perto de Alhos Vedros. Encontrámos, por acaso, o Comité Local, por cima da Paiva. Era o António José Piloto e o maquinista Horta.»

Já tinham passado 3 semanas desde o início da greve. Registava-se agora entre os ferroviários, algum desalento. A presença dos militares, pela vila, era opressiva. No jornal local Acção, referia-se a propósito da greve:

«A táctica adoptada pelo governo foi mobilizar diversas unidades do exército para com elas normalizar os serviços ferroviários, mas isso que ainda só veio agravar mais a vida interna do país, só tem protelado a questão, que particularmente também tem originado incalculáveis prejuízos».(3)

Alguns ferroviários começavam a regressar ao trabalho; os ânimos exaltavam-se e surgiam conflitos. No dia 24 de Outubro, ao fim da tarde, registaram-se incidentes.

«Ás 18h55 foi corrido o Guerra, escriturário amarelo, vindo alguns sobre ele, pela Rua Eusébio Leão. Pelas 19h20 foi também [corrido] o amarelo José d’Almeida “Rato Cego”. Ás 20h50, atiraram da janela do Alfredo Figueiras uma carta, com os dizeres “Viva os Ferroviários” e foi corrido, por uma claque de ferroviários, o sobrinho do “Rato Cego”. Por fim até perdeu a fala. Eu, e outros, mandámo-lo embora para casa.»

No dia seguinte escrevia: «Continua a greve e todo o dia andaram pela vila bastantes camiões, em transporte de carga e passageiros, de várias partes do Alentejo. Correu o boato de, ficar hoje, a situação dos ferroviários do Estado resolvida. Pelas 23h houve descargas na estação, sobre umas embarcações.»

2º parte: A greve de 70 dias no Sul e Sueste – 2

Continua…  

Rosalina Carmona

Historiadora

Barreiro, 26 de Novembro 2011