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Vidago e o comboio

blog 001carlos Quando olhamos o caminho de ferro pela perspectiva das monografias locais, ou seja, dos utentes, e a contrapomos às análises políticas, económicas, empresariais ou da história do caminho de ferro, fica-nos a sensação de que não estamos a falar sobre o mesmo assunto. 

Manuel Joaquim Pereira, em de 1965, espelha bem  o lado dos Vidaguenses. Vejamos as palavras e as imagens com que o faz.


A INAUGURAÇÃO DO TROÇO DA LINHA FÉRREA DE VILA REAL ÀS PEDRAS SALGADAS POR SUA MAGESTADE EL-REI D. CARLOS I, EM 1907

[Começa, como convém, com a notícia histórica da inauguração. É o principio da actividade ferroviária e, com ela, a oportunidade do escritor, ao descrever o percurso da linha, sublimar, junto dos leitores e viajantes, as características naturais da sua terra mãe. De mostrar como Deus a abençoara, dotando-a de uma inconfundível beleza mas, simultaneamente, atribuido-lhe os perigos e as adversidades necessárias para lembrar aos homens a sua condição. Enfim, as coisas a que, habitualmente, as divindades recorrem para colocar tudo na devida ordem e a que os escritores se agarram para evidênciar a virilidade, a coragem e a capacidade de sofrimento e de resistência que formam o carácter do povo. O vale do Corgo, que recebeu os carris, é de uma serenidade agreste, capaz de provocar apertos no coração.]
O ramal de Vila Real às Pedras Salgadas continuava o prolongamento da linha do Corgo, que vinha já da Régua por entre os abismos das margens acidentadas e pedregosas do Corgo, rio sereno e adormecido em noites de Estio. A linha corre por entre as treixeiras, aos ziguezagues, dando a ideia de que se vai despenhar pelos abismos que acompanhamos até Vila Pouca de Aguiar. Quantos viajantes mais timoratos pensam para si próprios que pode ser ali o fim das suas vidas? [ Há, ainda, muito romantismo nisto.]

Mas, graças a Deus, nada tem acontecido. O coração vai oprimido, é certo, mas logo se distrai com o encontro da paisagem que deslumbra.
[Depois vem a festa. Com a inevitável presença do afável  e anafado D. Carlos, do representante do governo, do clero, das companhias ferroviárias e das autoridades locais. Devem ter sido colocadas bandeirinhas, faixas e palmas, lançados foguetes e servido um fausto jantar.]

Foblog 002carlosi do Ramal de Vila Real que sua Majestade El-Rei D. Carlos I partiu, inaugurando, deste modo, a linha que vai até às termas de Pedras Salgadas. Acompanhavam o soberano, na carruagem real, o Conde de S. Lourenço e o Governador Civil, Dr. Luís Viegas. Além destas figuras de relevo, outras acompanharam Sua Magestade nas Pedras Salgadas, como sejam, D. António de Noronha (Paraty), José Pinto dos Santos, D. Tomás de Melo Breyner, António Pinto Bastos, D. Bernardo da Costa (Mesquitella) e Francisco Figueira Freire, bem como algumas senhoras.  [apesar de não especificar quem eram as senhoras, suponho que teriam ligações familiares aos senhores acima enunciados. Não creio que pudessem ser outras.] Depois de dois anos passados que Sua Majestade El-Rei D. Carlos I inaugurou o troço da linha férrea do Corgo, de Vila Real às Pedras Salgadas, Vidago ficou logo beneficiando por essa obra importante para a região. Os escassos 10 quilómetros que distanciam Vidago das Pedras Salgadas, eram muito bem vencidos para quem fosse de comboio; da Régua ou de Vila Real partiam landaus que, com maior facilidade, faziam o percurso até Vidago, em cerca de 50 minutos. [Já não era mau. O landós  ou landau, com as suas 4 rodas e permitindo a opção de descapotável ou de coberto, não era desconfortável ]
A linha férrea levou dois anos a chegar a Vidago, em fins de 1909, a qual beneficiou a sua rede termal . [ Finalmente. Tal era expectativa criada pelo comboio que, eventualmente, condicionou a construção do luxuoso Palace Hotel, de modo a que a longa avenida, típica desta tipologia de edifícios, formasse uma recta entre o centro da fachada e a estação de caminho de ferro.
Certamente que o comboio terá dado o seu contributo para negócio termal e este para o da ferrovia. Ir a banhos de comboio era, como se sabe,  prática usual em finais do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Mas, eis que viramos o meio século passado e a coisa se altera.]



Copia de blog 003carlosHoje, Vidago tem acessos para todas as partes do Mundo, em transportes modernos. As pessoas podem ser conduzidas ràpidamente, e sem grande incómodo, ao centro turístico da estância termal, venham elas do Minho ou do Algarve, ou qualquer outra parte do País, pois as vias rodoviárias, todas em excelente estado, permitem concentrar no local desejado, em pouco tempo, os viajantes. As estradas que ligam à fronteira internacional de Espanha são também excelentes e os aquistas estrangeiros podem, sem perda de tempo, e venham eles de onde vierem – da Espanha, França, Bélgica, Alemanha, etc. – fazer-se transportar com rapidez e facilidade, em escassas horas, até às primeiras termas de repouso em Portugal. [É a história do costume. A partir da década de 1940 a camionagem deu início à decadência do caminho de ferro]

O mesmo já não se pode dizer infelizmente, das vias ferroviárias, porque nas do distrito de Vila Real, especialmente na linha do Corgo, os três comboios que se cruzam diariamente, durante o Verão, da Régua a Chaves e de Chaves à Régua, são muito lentos. Seria bom e até vantajoso para a província de Trás-os-Montes que os comboios permitissem a deslocação mais rápida. Na linha do Corgo – um dos cenários naturais mais bonitos do País – o comboio, composto de carruagens antiquadas e de assentos desconfortáveis, sem comodidade alguma, para percorrer 77 quilómetros, demora 4 horas. [Até eu, com os meus 90 kg, na minha bicicleta com 15 anos, faço melhor.]

blog 004carlosQuando será que estes comboios são substituídos por automotoras mais rápidas e modernas? Não merecerá o transmontano tal atenção?
Os horários podiam ser modificados logo que se fizesse a mudança para transportes mais rápidos, como conviria, principalmente, a todo o concelho de Chaves e de uma maneira geral, a todo o distrito de Vila Real, e até mesmo à própria Companhia dos Caminhos de Ferro, já que esta modificação, certamente, lhe traria maiores benefícios  monetários.
O Vidaguense e todos os habitantes das terras que se servem do comboio para ir a Chaves tratar de assuntos camarários e de negócios, não o podem fazer, dado que o horário em nada os beneficia, pois o comboio chega a Chaves às 13 horas, na altura em que o comércio e as repartições públicas estão fechados, só abrindo às 14 e 15 horas. Em face disto, como é que se podem dar as voltas todas em tão curto espaço de tempo se o comboio parte da estação de Chaves às 16 horas? [O raciocínio parece-me lógico e assente em boas premissas. Até parece impossível que na CP ninguém se lembrasse disso.] Só tem uma solução: procurar a camioneta da carreira de Boticas-Vidago-Chaves, ou a carreira de Chaves a Vila Real, e vice-versa, isto no caso de arranjar lugar. Se não, tem de palmilhar, a pé, os 18 quilómetros que os separam de Vidago, ou mais ainda, se se tratar de pessoas das redondezas desta povoação.
Acontece precisamente o mesmo a quem tem de tratar os assuntos na cidade de Vila Real: o tempo é escasso e o pensamento está sempre na hora do comboio. 

Afinal é necessário perguntar se foi realmente a rodovia que destronou o comboio ou se foi este que se pôs a jeito para que isso acontecesse. O desinvestimento progressivo na infraestrura que, de imediato deixou de justificar a modernização do material circulante, fez com que o comboio deixasse de servir os utentes.  Depois é a história da galinha e do ovo que todos sabem: não se investe porque não há passageiros ou não há passageiros porque, devido à falta de investimento, o comboio não serve ninguém.
O que sabemos é que esta rede secundária, para além do papel económico e social que tinha para as populações locais, fazia desembocar milhares de passageiros na rede ferroviária principal, ajudando à sustentabilidade da Companhia. A falta de investimento nestas linhas e o seu progressivo encerramento, foi o principio do fim da rede rodoviária nacional. 
A falta de uma definição do que é o serviço público e uma visão sectorial, em vez de uma visão integradora do território, tem como consequência a falta de coesão e o aumento das desiguldades regionais que, apesar de ser antiga, infelizmente, se tem agravado nos últimos tempos.

autor: Carlos Barbosa Ferreira