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A greve de 70 dias no Sul e Sueste – 2

caminhoferroContinuação : A greve de 70 dias no Sul e Sueste – 1920 – através dos Diários de José António Marques

No dia 26 de Outubro continuava a greve e houve uma reunião, com o Ministro do Comércio, mas nada ficou resolvido. Saíram nesse dia, do Barreiro para o Alentejo 12 camiões, carregados de sacaria de adubos, da CUF.

No dia 27 terminavam sem êxito as negociações entre o Governo e o Comité. A situação nas casas dos ferroviários agravava-se, alguns arranjavam meios para tentar garantir a subsistência da família. Escreve ele:

«Pelas 20h45 passaram pelo Largo Casal 2 indivíduos, a vender sardinha fresca. Meteram-se pelo beco do Formiga, correndo o boato que eram ferroviários, disfarçados.»

No dia 30 de Outubro houve mais prisões. Pelo Barreiro dizia-se que a Ponte de Faro tinha ido pelos ares, e o “Século” noticiava que, os grevistas tinham tirado os carris, perto de Ourique. Nesse dia, à tarde, houve reunião de ferroviários, no campo.

«Fomos a caminho do campo ao sítio combinado para a reunião. Às15h15 fomos até ao Pinhal do Brenha, mas como não víssemos nenhum camarada fomos para a estrada. A primeira vedeta, no cruzamento, era Luiz Fonseca, a 2ª vedeta, na Quinta dos Arcos, o José Oliveira. Juntaram-se perto de 800 ferroviários.

Aberta a sessão, a maioria dos ferroviários, assentaram-se no chão. Presidente da reunião, o Piloto. O primeiro a falar foi o Custódio Boavida, sobre o estado actual da greve. Também falou o chefe dos maquinistas, Horta. Falou sobre o pessoal de tracção, principalmente os maquinistas, depois o José Leal, maquinista, sobre os últimos decretos do governo do Sr. António Granjo.

Até falou o Cebola, dizendo: “é agora o princípio da greve por violências”.

Também falou o militar do Batalhão de Sapadores, Luís Monteiro, disse sobre o mesmo caso do Cebola “isto aqui só por meio de violências, que andar a pedir aos ministros por esmola, de ministério para ministério, de dia para dia, não dá resultado”.

E ele disse: na greve de Novembro, há 2 anos, tinha queimado a caldeira da máquina 14, e era militar, dizendo [ainda] “o melhor era já formar uma comissão para se tratar das violências e actos de sabotagem”.

A seguir falou o chefe de estação, Fernandes Júnior, sobre a venda da linha. Depois falou o Chefe do Escoural, o Carvalho, sobre alguns assuntos da greve e sobre um assunto que se tinha passado com outro ferroviário: que vinham a pé em Poceirão e tiveram que negar que eram ferroviários.

Em seguida falou o revisor Ferreira, sobre muitos assuntos ferroviários, dizendo “o melhor era as violências, já não há outro meio a fazer”. Depois disse, “há dias, por não ter que comer, cozi uns caranguejos.”

No fim falou o Piloto, disse: “nem que viessem forças para nos prender, não retirava ninguém do lugar que estamos”, sendo aprovado por todos. Dizendo também: “camaradas: não tomai o trabalho sem ver a vitória final, senão ficamos desgraçados”.

Também falou sobre os 100 contos, que o governo vai fazer de despesa com os reis da Bélgica, que brevemente chegarão a Lisboa, e dos 300 contos para a ordem pública, que foram aprovados sem discussão, e para nós trabalhadores que produzimos não há verba, e não se aprova.

Sobre os amarelos, o Batalhão de Sapadores e o roubo nas Oficinas – de 400ks de metal branco – e sobre os camaradas a pedir o dinheiro à classe, disse “façam o menos possível, o dinheiro em caixa é pouco”.

Empregar as violências, não ter dó dos passageiros, que eles não têm dó dos nossos filhos e dos ferroviários estarem a morrer de fome.

E que o Sr. António Granjo condenou o vagão fantasma, mas está pronto a mandá-lo fazer. E condenou os ferroviários que frequentam tabernas e teatros, dando vivas aos ferroviários do SS, CP, MD e ao Comité, respondendo os camaradas com vivas ao Miguel Correia

O Piloto disse no final: “não haja receios alguns, é olhar para a frente, e não para trás”.

Terminou a reunião às 19h50. Destroçaram uns para um lado, outros para diversas partes. Vim só, em direcção à estrada, era escuro mas a noite estava linda. Ainda veio um cão atrás de mim, ouvi falas de pessoas conhecidas. Saltei o valado, caindo na estrada, aonde vinham muitos ferroviários.»

Nos dias seguintes, foram presos mais ferroviários e alguns, desesperados, estavam resolvidos a ir contratados para África, para os caminhos-de-ferro de Moçâmedes.

No dia 3 «foi preso o guarda-freio Cebola e pelas 10h25 fui avisado para fugir de casa, andando em minha procura a Polícia dos CFSS e o Sr. Alexandre, e alguns da Segurança do Estado, e o Secreta Alberto Silva. Fui para o terreno do meu pai. Foi o almoço e jornais, parecendo já um preso. Ás 18h5 regressei a casa, não fui à vila.»

No dia 7 de Novembro começou o vagão fantasma. O Batalhão de Sapadores cercou o Lavradio «sendo presos alguns ferroviários, entre eles o maquinista António Feio, Francisco A. Silva e Manuel Nunes. Estes seguiram no comboio 19, à frente do célebre “vagão fantasma” para Setúbal. No cabeçote da máquina soldados da GNR, tendo instruções de fuzilar os ferroviários que transitavam no dito vagão.

No dia seguinte foram para o vagão fantasma, o Luís Carvalho, fiel de estação, Francisco Candeias, chefe, e António Camacho, revisor de material. À noite recolheram ao Governo Civil [de Lisboa].»

O braço de ferro prosseguia e a situação económica dos ferroviários piorava, de dia para dia. Alguns, segundo JAM, estavam já a «trabalhar na agricultura no Lavradio, em Alhos Vedros, Moita, etc. e outros na Companhia União Fabril e na grande fábrica que se encontra em construção, na Verderena.»

A 9 escrevia ele: «Fui à vila à noite, soube que tinha ordem de prisão, [tal]como o Carlos Garcias. Este passou dois dias no Teatro República. Por esse motivo, a polícia andava em rondas, à procura também do Artur e do Custódio. Foi preso o filho do Brito.»

No dia 11 Novembro, o Tenente-coronel Raul Esteves convidou os ferroviários para fazerem a sua apresentação ao serviço, até dia 25, mas as prisões continuavam e os que fossem apanhados eram levados e metidos no vagão fantasma.

O desespero estava instalado e, no dia 12, houve mais um suicídio, matou-se com um tiro o bilheteiro António Paiva.

Continuava a greve. No dia 13, as caldeiras das Oficinas estavam a trabalhar, com militares do Batalhão de Sapadores. Diz JAM:«Ás 17h50 tocou a buzina, pela primeira vez, após 44 dias em greve.»

No outro dia à noite, o Largo Casal estava apinhado de ferroviários, ansiosos por notícias, que não chegavam. Corria o boato que tinham roubado a buzina das Oficinas.

Mas, no dia 16 a buzina tocou às 7h20, às 7h25, às 7h37, às 9h30, às 10h, às 11h45 e 11h52.

Café leitaria “Á CHIC” no largo Casal

Houve desordens numa taberna, no Largo Casal, e chegaram ao Barreiro mais 40 praças do Batalhão de Sapadores. Havia várias locomotivas avariadas, os militares não sabiam trabalhar com elas.

No dia seguinte não tocou a buzina nas Oficinas. Ao meio-dia, chegou farinha ao Barreiro, há já 7 dias sem pão. Soube-se que ficou formado o novo governo, e às 20h15, foi corrido do Largo Casal, o Manuel Sacristão, por ser amarelo.

Continuava a greve, mas havia carreiras de vapores para Lisboa, feitas por militares e umas 10 locomotivas a trabalhar.

«Pelas 20h10 atiraram foguetes. Diziam os boateiros, que era a greve resolvida, soube-se mais tarde que era o aniversário do 22 de Novembro. Por motivo do boato, da greve resolvida, havia já cervejas e no Largo Casal, não se podia passar, estavam perto de 300 ferroviários e de outras classes. Vinham saber notícias…»

No dia 25 de Novembro, terminou o prazo para admissão dos requerimentos, e, até esse dia, tinham entrado 5 nas Oficinas. Da parte da tarde, Raul Esteves e mais oficiais, «passearam pela vila. Patrulhas de Infantaria e Cavalaria não autorizavam grupos pelas ruas, nem nos estabelecimentos. O governo pediu a demissão. Fez um dia tristíssimo, todo o dia.»

A 30 «Continuação da greve. Três indivíduos desconhecidos deram uma tareia no Inspector Carvalho. No dia 1, julgando haver reunião dos ferroviários, forças da GNR a pé, de cavalaria e engenharia e alguns camiões, foram para o Vale Romão. Ainda prenderam um fulano três vezes, apalpando quem passava e revistando carroças, burros, etc.»

1ª parte: A greve de 70 dias no Sul e Sueste – 1920 – através dos Diários de José António Marques.

Rosalina Carmona

Historiadora

Barreiro, 26 de Novembro 2011

continua….