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Comunicado MCLT – “Uma explicação e um desabafo”

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tuaBarragemHoje vamos tentar explicar-vos a maior tragédia dos últimos tempos no Vale do Tua, que só não é maior do que a própria Barragem.

E por onde começamos? Pelo óbvio: A Linha do Tua serviu incessantemente a população transmontana residente no Vale do Tua desde a sua inauguração, no dia 29 de Setembro de 1887, ao qual se juntou a restante população transmontana a Norte de Mirandela, quando foi inaugurado o segundo troço, a 1 de Dezembro de 1906. Ao logo desde traçado de 134 km, a Linha do Tua tinha um interface com a Linha do Douro e servia de forma directa 3 grandes cidades e 34 aldeias – um número que eleva bem alto o nome do “bom serviço público” e orgulha o serviço regional ferroviário que “era” prestado à região.

“Era”… porque tudo acabou. Após décadas de desinvestimento e decadência notória a que a Linha do Tua foi sujeita, depois de todas as intempéries que o comboio do Tua viveu, e de algumas vítimas mortais, depois de todos os atrasos na reposição do serviço público ferroviário e sua posterior substituição por táxis que não servem nem os passageiros locais nem os turistas, e depois de um plano de (i)mobilidade composto por 4 transbordos e que elevará para horas um trajecto que o comboio fazia em 20 minutos, eis que nos chegam agora noticias da ADRVT (Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Tua).

Esta tão notória ADRVT foi criada com o propósito de gerir e preservar aquilo que a EDP vai destruir, criando assim um “Parque Natural” em torno das ruinas do que foi o Vale do Tua. Resumindo a questão, o Homem destrói um ambiente digno de verdadeiro Parque Natural para depois criar empresas responsáveis por criar um novo Parque Natural, no sítio do antigo.

Mas a cereja no topo do bolo surge quando, no fim de toda esta patranha, a EDP se descarta de toda e qualquer responsabilidade na reposição do transporte ferroviário e outras medidas compensatórias a que estava obrigada, e as autarquias decidem entregar a exploração do Plano de Mobilidade a entidades privadas. Durante todo o processo, foram sempre existindo diversos incumprimentos e ilegalidades que a EDP preferiu “esquecer”, enviando agora a responsabilidade para privados que não têm forma ou meios para os cumprir. Quem assumirá os compromissos impostos pelo RECAPE (Relatório de Conformidade Ambiental e Plano de Execução), para a realização da obra? Quem ficará responsável por assegurar a reposição do transporte ferroviário?

E caso não surjam interessados na exploração? A quem devemos imputar a culpa pela falta de transporte da população local? Aos “privados” que, mediante tão escassas condições e financiamentos, não têm capacidade a assegurar a correta exploração, ou à EDP, que uma vez mais sai impune e incólume da situação?

Em resumo: Deixámos erguer um muro de betão no Vale do Tua. Deixámos que a EDP destruísse a Linha do Tua e deixámos que as pessoas ficassem sem transporte seguro e eficaz. Depois, gastámos dinheiros públicos para que fossem criadas Agências e Empresas para recuperar aquilo que a EDP destruiu, mas descartamos a futura responsabilidade para privados. Por último, vamos construir um “Parque Natural” na lama e nas cinzas daquilo que era, verdadeiramente, o maior Parque Natural em Portugal: um ambiente escarpado único onde Rio e Linha do Tua, ainda feita a pá e picareta, se uniam numa doce melodia que tão cedo não voltaremos a ouvir e que era apelidada como “a mais bela da Europa”, por alguns visitantes que seguramente não regressarão ao local.

Assim está o Tua. Assim está Portugal.

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Movimento Cívico pela Linha do Tua