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Património Ferroviário: à conversa com Jorge Custódio – Parte 01

Jorge Custódio

img: patrimoniocultural.pt – Jorge Custódio

Na sequência da abertura de vagas para um curso sobre Património Ferroviário. Proposta coordenada pelo Grupo de Investigação do Património Ferroviário da APAI, e inserido no programa de actividades do Centro Nacional de Cultura (CNC). Também pelas pistas que a formação pode deixar em áreas que dão dimensão ao tema, como contexto histórico, regulamentação, restauro ou museologia. Partimos ao encontro do presidente da APAI – Associação Portuguesa de Património Industrial, o investigador Jorge Custódio. Aproveitamos para falar, entre outros temas, sobre a área Património Ferroviário na formação de curta duração do CNC.

Tendo como referência o Património Industrial, mas com o fio condutor no Património Ferroviário, começamos por procurar saber em que medida a investigação e a apresentação de estudos podem assumir-se como base na defesa e valorização da textura ferroviária do passado no presente para futuro.

“Em primeiro lugar, quando falamos de património é necessário saber o que é. O estudo impõe-se como sendo a referência principal para identificar, salvaguardar e classificar o património industrial, e neste caso o património ferroviário”, enquadra Jorge Custódio. Dentro do domínio do património ferroviário, refere que na actualidade já existe um acervo considerável de pesquisa conhecida. No entanto lembra que o caminho-de-ferro compreende um leque considerável de dimensões. As abordagens podem sedimentar conhecimento sobre paisagens ferroviárias, infraestrutura e superestrutura, material circulante, operários ou trabalhadores ferroviários e bairros operários ou sociais; ou ainda em domínios superiores de salvaguarda e valorização, como acontece a nível da museologia ferroviária. Por isso adianta que a divulgação e conhecimento desses estudos: “são essenciais para justificar atitudes ”.

O investigador, último director do Museu Nacional Ferroviário, nesse aspecto recupera quatro momentos, tanto no Património Industrial como no Ferroviário, que justificam atitudes. O vandalismo, o abandono, a intervenção e a salvaguarda e conservação, onde se aloja a classificação dos bens imóveis e móveis.

Em primeiro lugar, “o vandalismo, tão corrente em Portugal e muito decorrente em Portugal, que é de espantar como não há reacções públicas ao vandalismo, sendo as reacções cívicas muito escassas para combater o flagelo”. A este nível, e embora se comece a entaipar edifícios, podemos lembrar o património ferroviário edificado sem uso com os vidros partidos, portas arrombadas, paredes grafitadas e interiores remexidos. Ou um conjunto de locomotivas a vapor abandonadas, onde se insere a locomotiva BA 61 na Pampilhosa, sem que CP Comboios de Portugal e Museu Nacional Ferroviário mostrem respostas concretas e definidas, ou deleguem compromissos para soluções.

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img: Morgado – Oficinas do Pocinho

O abandono é uma outra atitude. “Quantas vezes, o material circulante que informa pertencer ao “museu” encontra-se abandonada na via, como sucata. Por vezes há anos. O abandono de estações ferroviárias, rotundas, etc.”. Um bom exemplo – recuperámos neste contexto – pode ser encontrado na linha do Douro, na estação do Pocinho, onde o material histórico das linhas de via estreita apodrece ao sabor dos elementos, porque o teto da antiga oficina que alberga os veículos abateu. Simplesmente deixa-se estragar, pois os proprietários dos bens não tem solução para cobrir os edifícios, para acarinhar as composições como coisa sua, como sua pertença, como estímulo para uma estratégia da valorização dos caminhos de ferro portugueses e o seu futuro. Não há compromissos. Não se delegam responsabilidades.

O terceiro tipo de atitude, de acordo com Jorge Custódio, passa pela intervenção. “ Podemos fazer intervenção no Património Ferroviário se soubermos que uma determinada estação, uma determinada rotunda tem uma determinada história; é possível que a intervenção seja a mais correcta, menos destruidora”. Numa estação já desactivada, defende que a existência de informação cria “condições para que haja protecção e uma salvaguarda do valor que ela em si contém ou encerra”.

Destaca: “no caso concreto das estações ferroviárias, o problema histórico e artístico que manifestam em geral reflecte também a identidade das linhas”. Dimensões onde acrescenta o valor do acervo azulejar e a componente decorativa. “ Têm a vantagem de ser um indicador histórico artístico de Portugal”, referindo que esse é um aspecto que também não poderá ser deixado de ter em conta. E refere: “Se por exemplo não houver estudos sobre uma estação, uma rotunda, uma locomotiva, evidente o que se pode fazer? Pode considerar-se que é passado, mas o património não é passado. O património é algo que interessa sempre para o futuro”.

“Por isso eu direi que estas três atitudes são fundamentais para compreender, mas há uma outra atitude, que é a da salvaguarda”.

Salvaguarda do património ferroviário, por se saber depois de identificado e de estudado, que “património é esse”, por um lado. Por outro, “protege-lo de forma total e contínua”.

“Por exemplo num museu. Uma peça que vá para museu em princípio está resguardada. Não se vai pensar que vai ser vendida, ou ir para a sucata”. No entanto a atitude de salvaguarda não se esgota na protecção. Para o investigador existem outras categorias. “Como por exemplo a classificação, como por exemplo a sua valorização ou a sua transformação num tesouro”.

Refere ainda o antigo director do Museu Nacional Ferroviário: “do meu ponto de vista, e sempre defendi isso, o comboio presidencial é um tesouro nacional. Tal como o comboio real. E como tesouro nacional merecem uma protecção superior”. A protecção superior implica a criação de uma entidade “que reconheça esse valor e simultaneamente lhe determine um grau superior de salvaguarda ”, defende.

A fechar a questão do conhecimento como sedimento de valorizar o Património Ferroviário, Jorge Custódio destacou dois aspectos. Considera que o estudo apresenta-se indispensável. E nesse contexto lembra o interesse da realização de conferências ou congressos para estimular e libertar esse conhecimento.

Por outro lado refere, “só muito recentemente se começou a pensar e ver o material ferroviário, seja material circulante, sejam infra-estruturas, como aquilo que é relevante para o conceito de valor do Património Ferroviário”. Todavia, aquilo que se tem feito neste campo – apesar de termos dado alguns passos em frente, mostra-nos ainda um estádio de salvaguarda e valorização que nos remete para a “pré-história do património”, remata.