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À Janela de Comboio – Sernada-Aveiro – Parte 01

Dez anos depois, foi em 2006 que a passei pela primeira vez por Sernada do Vouga e no ramal de Aveiro. Voltei a andar, ver, ouvir e cheirar a Linha do Vouga. A imagem inusitada de um comboio a circular em cima do alcatrão, numa ponte, ainda se mantém, mas ver as últimas alterações na infraestrutura entre Sernada do Vouga e Águeda, mostram a consciência IP na ferrovia. Para a empresa Beira Alta ou Vale do Vouga é tudo igual.

Depois de ter ouvido um responsável da CP, com ligação directa ao Conselho de Administração da empresa, dizer que o operador está a equacionar criar um produto para explorar turisticamente a linha do Vouga, custa ver as alterações introduzidas pela IP na beneficiação de 2015 em Sernada do Vouga e Macinhata.

Ver que a IP, na intervenção de beneficiação, para poupar nas agulhas, deixou um layout mínimo de duas vias para o serviço comercial na estação de Sernada, é pouco para quem tem poder e uma visão global. Se um operador conseguir produzir um comboio turístico regular, não há resguardo em frente à estação sem limitar o serviço comercial. Vai ter de manobrar para a zona da EMEF, e entupir o acesso à oficina. Ou então fica a limitar a paragem, manobra ou formação de comboios comerciais.

E pensar que a linha do Vouga ainda não foi fechada. Dá para viajar desde Aveiro de janela aberta e tem um Museu na Macinhata. Em Sernada tem edifícios, um enredo ferroviário, e mais um museu. Também tem espaço para almoço, praia, jantar e no dia seguinte seguir para Espinho.

O parqueamento de material circulante acaba por ser outro detalhe interessante na beneficiação. O projecto desenvolvido pela IP Engenharia colocou os comboios da  CP a realizarem três movimentos para resguardar ou ir para a oficina. Hoje já não interditam a ponte com a manobra. Em contrapartida quando em frente à estação fazem-se a 3 agulhas. A primeira para entrar na via da antiga ligação a Viseu, a segunda para o veiculo ir quase até à entrada da ponte, uma vez aí aponta na terceira para imobilizar ou ir para a oficina.

É verdade que qualquer manobra deixou de interditar a ponte, mas limpou tudo à volta e deitou fora uma utilização cultural e ludica. A rotunda do complexo, por exemplo, ficou isolada. E ao lado dos armazéns as vias e agulhas foram levantadas. Caso para dizer: de agulha em agulha enche a IP o papo de segurança e manutenção.

Mas o curriculum IP tem outro momento na beneficiação do troço Sernada-Águeda. Na obra a estação de Macinhata também foi alvo de intervenção. O projecto isolou o núcleo museológico de Macinhata do Museu Nacional Ferroviário, a escasso metros da via, com a amputação do ramal que ligava a cocheira à rede ferroviária nacional. A IP, alegando razões de segurança e oferecendo o rebuçado da ripagem, retirou a agulha e sepultou o material circulante presente no núcleo.

A linha do Vouga, também por ser via estreita e assim se tornar ainda mais hermética, e ainda se encontrar em funcionamento, tem um dimensão histórica, cultural e de entretenimento que não pode ser ostracizada. Tem história, estruturas e acervo, a ser equacionados porque assim também se presta serviço publico. Mais ainda quando o património pode ser valorizado de forma integrada e como produto ancora para turismo.

Embora não seja justo retirar sensibilidade à maior empresa portuguesa de activos, as competências e quadros técnicos merecem respeito, a empresa tem de mostrar mais ao nível do aproveitamento do património de forma integrada. Pede-se mais a quem tem responsabilidade, desde logo a saber distinguir infraestruturas. Os objectivos da Linha do Vouga não são os mesmos da Linha da Beira Alta. As beneficiações  não são nem podem ser as mesmas, bem como as dimensões de exploração. A dimensão cultural é uma dimensão em que a IP tem de dar mais, e tem poder e responsabilidade para isso.

Rui Ribeiro


Artigo completo encontra-se disponível para subscritores.

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