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Olhar de um Passageiro Intra Rail Dia 2

img: Rafael Silva - Est. Tua

img: Rafael Silva – Est. Tua

Como vem sendo habitual, nas minhas viagens os dias começam cedo. Para variar, hoje não foi exceção. Levantamos ainda não eram 8 horas. Choveu toda a noite. Por vezes parecia que era um diluvio. Nunca tinha ouvido chover tanto na minha vida. O pequeno-almoço estava incluído, por isso aproveitei e fui alimentar-me.

Vamos começar este longo dia de comboio. Fiz planos de regressar a Campanhã no 207, visto que até à hora de almoço havia essa ligação. Mas rapidamente mudei de ideias. Sai em São Bento e fui passear um pouco e dar a conhecer a minha companheira a bonita estação de Porto São Bento. Vendo bem, ainda tinha mais de uma hora. 10:20 Marca a saída de São Bento. O comboio ia prosseguir marcha até Guimarães. As saudades que já tenho daquele magnifico sitio que havia visitado à um mês atras. Espero um dia lá conseguir voltar.

No cais da estação tive de fazer algum tempo. Aproveitei para ver o material circulante e esperar a chegada do Inter-regional da Régua e o Internacional que vinha de Vigo e que era o que iria me levar até à Régua. Não foi possível explorar toda a estação pois a chuva está de volta à cidade invicta.

Entramos no comboio e fiz questão de procurar pelo melhor lugar à janela. Do lado do rio, embora a primeira hora de viagem tenha sido pelo meio das terras passadas. Após o juncal a paisagem começa a melhorar e a partir do Mosteiro o comboio acompanha o bonito rio Douro, completamente junto ao mesmo de onde nunca mais se separam. A chegada a Régua foi feita à tabela e sem incidentes. No decorrer da viagem, as pessoas da minha carruagem mostravam-se particularmente satisfeitas com o que viam e com o nível do serviço naquele comboio. Em relação ao comboio 592, nada a apontar, nem cheiros a gasóleo nem desconforto como muita gente fala. Do que já tive oportunidade de experienciar só tenho a dizem maravilhas do serviço!

Enquanto procurava um restaurante para almoçarmos aproveitei para dar uma pequena volta na avenida principal da Régua, já que neste momento nem uma gota de água caía do céu. Acabei por regressar onde muito bem tinha comido o ano passado, no Restaurante Dois Irmãos, na avenida principal. Escolhi lombo de Porco assado com uma batatinha. Do melhor que se pode comer. Comida caseira e muita simpatia por parte da dona da casa.

Antes do regresso a estação, mais uma volta, desta vez na parte junto ao rio. Claro que, tive de voltar a provar os doces mais típicos da região. Os famosos rebuçados da Régua. As rebuçadeiras confeccionam-os nas suas próprias casa e vendem posteriormente nas ruas e na estação aos turistas que visitam a região. Devo dizer que, mais uma vez, de comer e chorar por mais.

Voltamos a viagem. Com o aproximar da hora, o nervoso miudinho começa a conquistar-me, até ficar sem reacção. Qual era a composição que vai entrar por aquela estação? Será um 592 e vou ter de adiar mais uma vez o meu encontro com os comboios de locomotiva e carruagens? Só o tempo o dirá…

Com 10 minutos de atraso, é anunciada a entrada do comboio na estação. Aí quase que o meu coração parava. Nem a minha própria namorada me conseguia acalmar. Ao fundo, uma laranjinha entra na estação e aí sim, um dos momentos mais felizes da minha vida ferroviária. 15 Anos depois voltava a ser tracionado por uma 1400 num comboio de serviço regional. Hoje faz se acompanhar de 5 carruagens corail e um gerador. Um comboio bastante grande. Entrei na segunda carruagem e sentei-me. Rapidamente mudei de sítio. Avancei outra carruagem e ainda não era ali que ia ficar a apreciar a bonita paisagem. Decidi então ir para a ultima carruagem e tal não foi o meu espanto? Uma carruagem Bar e primeira Classe se encontrava na retaguarda do comboio. Circulava vazia e foi ali mesmo que decidi ficar. Ocupei a mesa e fomos a vontade. Nas estações de Covelinhas e Ferrão nem a plataforma se via. Tal não era o tamanho do comboio… No pinhão desloquei-me à porta para apreciar as paisagens e a bonita estação. Mais uma vez deixamos uma estação para trás e continuamos a vontade como se de uma carruagem alugada se trata-se.

TUA! Aqui esta estação carrega história. Já cá tinha estado no ano anterior e agora regressava apenas de passagem. Nunca cheguei a ver aquela estação com o movimento que tinha com a linha do Tua, mas sempre que lá vou, consigo imaginar aquela pequena localidade cheia de vida ferroviária como nos tempos antigos. Aqui já perdi conta do atraso que levamos, mas é a vontade mais de 20 minutos. No pequeníssimo apeadeiro de alegria vi uma pessoa a descer do comboio. Fiquei sem saber como ela sairia dali…

A paisagem continua a demonstrar a sua beleza natural até que uma ponte metálica, de sua cor verde, interrompe a paisagem e o comboio pára. Seu nome, Ferradosa. A viagem segue rapidamente, pois ninguém abandonou o comboio. Aquela estação marca a passagem da linha da esquerda para a direita da margem do rio. Aproveitei eu também e passei para a outra janela onde continuávamos solitários numa carruagem que parecia abandonada e esquecida da composição. Vargelas e Vesúvio passaram-se como todas as anteriores estações que havíamos cruzado. Sem passageiros e com o aspectos de abandonadas. Talvez a falta de população e os poucos comboios que ali passam ao dia determinem que os passageiros já não usem o comboio como meio de deslocação no seu dia-a-dia.

Freixo de Numão, a única estação que fugiu à regra anteriormente dita. Nesta estação vi muito movimento e muitos passageiros aqui desembarcaram e seguiram o seu caminho a pé após o comboio abandonar a estação. A viagem agora tornou-se rápida, como se do fim se trata-se, e com o atraso de 20 minutos já irrecuperáveis. Atravessamos uma ponte e ali – eu reconheci logo o característico edifício amarelo -  a curva a esquerda não engana ninguém que ame a ferrovia. Era tempo de dizer Pocinho!!

Ao chegar, e nesta estação, senti-me em casa. Não tinha palavras. Aquilo é tudo o que admiro nos comboios. Estação término, diesel e comboio composto por locomotiva e carruagens. O tempo nela era curto. A partida está marcada para as 17:22. Desta vez directo ao Porto. Aproveitei bem o tempo. Primeiro e mais importante era comprar algo para comer, pois três horas de viagem a apanhar o jantar não é fácil de se aguentar. Depois disso explorei a estação e fiz uma coisa que, mais um vez, não fazia faz já 15 anos. Admirar uma inversão de locomotiva como nos tempos auge do diesel em Portugal.

Chegou a hora de partir, e custou virar as costas aquele ambiente ferroviário. Por um lado foi triste, mas pelo mais importante, trago o sentimento de que aquelas horas todas de viagem culminassem na felicidade de uma criança de 5 anos. Era o meu caso desde que entrei naquele comboio.

Até ao Pinhão a viagem correu normalmente, efectuando paragens nas mesmas estações. No pinhão destacou-se pelo elevado número de passageiros para embarcar neste comboio. Eram as excursões de barco que acabaram ali e que terminavam com a viagem  de comboio no regresso ao Porto. Assim já se justifica a capacidade daquele comboio. Na chegada à Régua o panorama era igual, ou pior, aquele que tinha ficado para trás no Pinhão. Daqui para em diante o comboio seguiu de lotação esgotada. Não havia um único lugar e para os mais azarados a viagem fez-se em pé. Talvez aqui fosse necessário rever um pouco o plano para combater estas enchentes em dia de cruzeiros. Ainda por cima na semana a seguir junta-se o comboio histórico aos programas reservados para a Linha do Douro.

A viagem foi tranquilo até a estação de Campanhã. Apesar de todos os problemas acima referidos e os 30 minutos de atraso, os passageiros fizeram uma boa viagem, sempre com boa disposição. No desembarque no cais da linha 3 era visível a felicidade na cara daqueles que tinham aproveitado ao máximo aquele momento que raras vezes se demonstra no Douro.

O comboio para São Bento seguia cheio. Não cabia nem mais uma pessoa e as que iam não tinham margem para manobrar. Perdi o autocarro e estava tão cansado que nem me apeteceu esperar pelo próximo. Decidi optar por um táxi visto que ainda eram uns quilómetros de distância para chegar de novo a Pousada da Juventude. Horas de jantar.

Decidi já não sair a noite. Optei pelo quarto para repousar. Sentia-me uma criança realizada com um presente que tanto queria. Mo meu caso foi a melhor viagem que fiz de comboio nos tempos que correm. Espero conseguir um dia repetir este dia que teve tudo de perfeito. Amanhã o mais provável é andar a ver o Porto, passando em ambas as margens, mas de momento ainda sem planos. E claro, como sempre, já vejo o tempo a escapar-me e o regresso a Lisboa cada vez mais perto…