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Caminho de Ferro e Património Ferroviário: 2ª sessão na próxima terça

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img: Daniel Nogueira

Na próxima terça-feira, 25 de Outubro, realiza-se na sede do Centro Nacional de Cultura, a segunda sessão do curso “Caminho de Ferro e Património Ferroviário”. A formação tem a coordenação do Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial (APAI), e pretende valorizar conceitos de defesa e salvaguarda associados ao Património Ferroviário.

No Séc. XX assistiu-se a uma inversão na consciência de preservação do Património Ferroviário. Se desde a primeira metade até ao final do Século passado eram as próprias companhias de caminhos de ferro que sentiam necessidade de defender e salvaguardar o seu património, hoje a sua salvaguarda e conservação são uma exigência das populações que se identificam com a ferrovia ou dos utentes dos caminhos de ferro. Por um lado como factor de identidade, por outro como degrau de afirmação no progresso do modo de transporte.

A substituição da tracção a vapor pela tracção diesel ou pela electrificação das linhas, quando aprovada, alterou a paisagem operacional e a orgânica das empresas. Levou à criação e ao fim de profissões, promoveu alterações estruturais nos operadores, nas infraestrutura, e no material circulante. Processo de viragem onde o estágio anterior justifica o desenvolvimento tecnológico do estágio seguinte.

A intenção de preservação que ganha forma no seio das companhias a meio do Séc. XX, essencialmente virada para o material circulante, e estações, surge para defender e preservar esse legado. No entanto, com a entrada do novo Século, o Património Ferroviário liberaliza-se para o espaço publico. Passa a não interessar só às empresas, com as próprias empresas se tornam objecto também da atenção pública e a preocupação estende-se à sociedade civil.  Ganha dimensão. Já não é só o material circulante, ou a estação, que tem de ser alvo de defesa e salvaguarda. A própria orgânica de empresa, a infraestrutura, ou a própria operação, passam a ser elas também temas para interpretação e enquadramento. Paralelamente, a apropriação do Património Ferroviário pela sociedade, abre o conceito de laser associado, e que pode ter um aspecto dinâmico em relação ao valor cultural das antigas linhas.

Dinâmico como Património Ferroviário histórico integrado para turismo e laser. Algo que pode ser representado pelo aproveitamento de uma estação recuperando uma época. Onde a infraestrutura de apoio à operação e material circulante recupere o ambiente, e que não descarte comboios em movimento. Integração que afirme a parte histórica da ferrovia como produto âncora de turismo, e conceda uma segunda vida ao Património Ferroviário. Não descartando os fluxos de turismo dos grandes centros urbanos, e o potencial para coesão, integração e desenvolvimento da região onde está inserido. Premissas que a IP Património, como gestor da infraestrutura ferroviária, podia ter como desafios para além do fácil e do óbvio que por si já tem saída.

1ª Sessão – Revolução Industrial, Industrialização e o Caminho de ferro – Visão Geral

A primeira sessão do curso realizou-se no dia 18, subordinada ao tema “A Revolução Industrial, a Industrialização, e o Caminho de Ferro – Visão geral”. Marcaram presença no curso, além Jorge Custódio, Paula Azevedo e Ana Sousa, da equipa de formação; além dos inscritos.

O caminho de ferro e o papel catalisador na industrialização global gerada pela revolução industrial iniciada na Grã-Bretanha da segunda metade do Séc. XVIII,  esteve no centro de hora e meia de formação dinamizada pelo investigador Jorge Custódio, da APAI.

A existência de vontade e verba para investir na inovação aplicada à exploração de minas e transporte do minério. O consumo de carvão e ferro para produzir aço. A substituição da água e vento pelo vapor como fonte de energia. Ou o desenvolvimento da máquina a vapor, geram eficiência e alteraram os processos de produção e consumo, transformando a sociedade.

A “ferrovia assume-se como central pelo seu papel de ligação” no processo, explicou o investigador. Num primeiro momento, associado à exploração mineira, através do desenvolvimento dos carris da via-férrea, do aperfeiçoamento da tracção a vapor para movimentar cargas, do conhecimento técnico para construir obras de arte, e do transporte do minério para exportação.

Depois como ferrovia industrial, agrícola, portuária, urbana e de transporte de passageiros. Deixa de se confinar à mina e passa a optimizar a produção industrial de uma empresa, dá apoio à exploração comercial de roças de açúcar ou cacau, ajuda à construção de portos ou movimentar carga, e começa a servir os centros urbanos e ligar vilas e cidades.

Como factor central para a industrialização a ferrovia destacou-se como uma indústria, e como acelerador de industrialização. Os construtores  produzem material circulante para o país, mas também para fora, respondendo a encomendas. Por outro lado a ferrovia é uma forma de ir buscar as matérias-primas, ou instalar industria.

Na parte comercial, e pese embora a constante inovação tenha dificultado um padrão nas redes, a ferrovia torna-se hermética, e assume-se como o primeiro sistema industrial do mundo. As companhias apresentam-se auto-suficientes. Comportam operação, infraestrutura, manutenção, e formam os seus próprios quadros. A realidade ferroviária deixa de estar ligada a um sector, e oferece soluções de transporte para movimentar passageiros, mercadorias, tropas, ou desempenhar funções dentro da empresa, como o comboio pagador.

A terminar

Referir ainda, no contexto da hora e meia de curso, que um dos formandos é associado da APAC. A associação surge como entidade afiliada da APAI, integrante da secção de património ferroviário da associação focada na arqueologia industrial, e no curso ministra um módulo. Destacar também que no âmbito da defesa e salvaguarda do Património Ferroviário a APAC criou recentemente uma secção dedicada à temática.

No entanto, e não deixa de ser curioso, APAC não ter feito qualquer promoção e divulgação de um curso em que participa, e se insere numa directamente em área reconhece ser relevante intervir. Isto porque, segundo o associado, enquanto membro da APAC não recebeu qualquer informação sobre a realização do curso.

A próxima sessão realiza-se na terça-feira dia 25 de Outubro. A “História do Caminho de ferro em Portugal: síntese” será o mote para mais um hora e meia para dar lastro ao Património Ferroviário.