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As carruagens de passageiros no modelismo ferroviário português

Por João Paulo Ferreira

Para o modelista ferroviário de escala H0 coleccionador de material português, não é fácil formar comboios de passageiros realistas. Existe uma variedade bastante grande de vagões de mercadorias, locomotivas também já vai havendo algumas, considerando as produções em plástico e em metal, mas quanto a carruagens de passageiros nada de significativo.

Para formar este tipo de comboio, o modelista português de escala H0 tem que recorrer a modelos de carruagens estrangeiras e proceder a transformações mais ou menos complexas e dispendiosas, para poder dispor de carruagens minimamente parecidas com as da CP para formar os seus comboios.

Esta lacuna torna-se ainda mais evidente a partir do momento em que a marca SUDEXPRESS lançou as locomotivas diesel da série 1400, em várias versões e, mais recentemente as locomotivas eléctricas das séries 2500 e 2550, também em várias versões. Em qualquer dos casos trata-se de modelos bastante detalhados em que a relação preço qualidade é aceitável, conferindo às nossas composições uma imagem realista. Mas, uma maqueta não se compõe só de locomotivas e comboios de mercadorias. Para se tornar completa faltam as composições de passageiros. É certo que há uns bons anos atrás a marca LIMA lançou as carruagens Corail portuguesas em versão original, mais tarde a marca ROCO lançou a versão Intercidades das mesmas carruagens, tendo mais recentemente lançando as mesmas novamente com o aspecto original.

Mas, os comboios portugueses de passageiros no período áureo mais recente do nosso caminho-de-ferro, refiro-me aos anos 70, 80 e 90 do século XX, não se compuseram só de carruagens Corail. Elas surgiram somente em 1986 e constituíam apenas uma pequena parte da frota de carruagens de passageiros da C.P. O grosso da frota era, na época referida, constituído maioritariamente por carruagens de caixa em aço inoxidável, construídas na antiga fábrica portuguesa Sorefame e que, distribuídas por várias séries e modelos ascendiam a mais de 200 unidades! Junto uma pequena tabela da documentação disponível, que abrange desenhos disponibilizados até 1986.

WR_2017 02 06 As carruagens de passageiros no modelismo ferroviário Português VFinal-Tabela

A faixa etária de muitos dos modelistas ferroviários actuais anda pelos 40, 50 anos, indivíduos que conviveram portanto, de perto com o apogeu das carruagens Sorefame. É pois natural que ao aparecerem no mercado modelos de locomotivas da época acima referida estejam desejosos de poder adquirir também carruagens a condizer.

Depois de muitas promessas e alguma expectativa, eis que a marca SUDEXPRESS anuncia, finalmente, o fabrico de algumas versões de carruagens Sorefame. Não aparecem todas, o que é compreensível, mas com as que aparecem já se torna possível formar composições em escala H0 conforme elas eram na realidade, pelo menos teoricamente. E digo teoricamente porque os modelos em vez de serem apresentados avulso, são anunciados em conjuntos de 3 unidades, conjuntos esses, na minha opinião, deficientemente estruturados!

Vejamos alguns exemplos: a carruagem salão de 2ª classe, série 22 40 é-nos proposta em várias versões, mas sempre acompanhada de outras, nomeadamente uma 20 69, 2ª classe de compartimentos, e uma 10 69, 1ª classe de compartimentos. Sendo a 22 40 a maior série de carruagens que alguma vez existiu em Portugal, originalmente 80 unidades!, é natural que as composições que se venham a formar nas nossas maquetas H0 necessitem maioritariamente deste tipo de carruagem, isto partindo do princípio que o modelista irá reproduzir as composições com o aspecto o mais real possível.

No meu caso concreto necessito de 6 carruagens 22 40, uma ou duas 20 69 e 2 carruagens 10 69. Da forma como os modelos são apresentados para ter 6 carruagens 22 40 terei que comprar seis conjuntos ficando com outras tantas 20 69 e outras tantas 10 69.

Pergunto eu, para que quero seis carruagens de 1ª classe de compartimentos e outras tantas de 2ª classe da série 20 69?

Não se tratando de peças propriamente baratas, a julgar pela qualidade dos produtos da SUDEXPRESS, o que provavelmente farei será adquirir apenas 6 carruagens, isto é 2 conjuntos de 3, ficando apenas com duas carruagens de cada série ou, na pior das hipóteses desistir pura e simplesmente de as adquirir!

A comercialização de carruagens em conjuntos não me parece ser a melhor forma de escoar o produto. Até admito que haja um conjunto base, mas depois alguns modelos devem ser comercializados avulso, devendo o fabricante do modelo ter em conta qual a série de carruagem que existiu em maior número e que, como tal, marcava presença mais forte nas composições.

Neste caso concreto até me parece aceitável um conjunto de 3 unidades, uma 22 40, uma 20 69 e uma 10 69, desde que haja alternativas complementares. Por exemplo, as carruagens 22 40 podem também ser comercializadas em conjuntos de duas com matrículas diferentes, mas já a 10 69 e as 20 69 não me parece lógico que assim seja. Se tivermos em conta que nos comboios reais as carruagens de 1ª classe raramente seriam mais que duas e as de 2ª da série 20 69 idem e que o conjunto base de 3, já trás uma destas, então não vejo outra alternativa lógica senão comercializar as 10 69 e as 20 69 individualmente, conforme aliás está anunciado no caso dos restaurantes. Ou então fazer também as 10 69 500, os emblemáticos salões de 1ª classe que andavam em exclusivo nos rápidos Lisboa – Porto antes do aparecimento das Corail. Aqui sim já poderia haver um conjunto de duas 1ª classe, em que uma seria de compartimentos e outra, salão. A comercialização dos modelos com este formato não me parece, no entanto, impeditiva de todos eles serem comercializados avulso! A série 22 40 é um bom exemplo disso, sendo uma série tão numerosa e, como tal, presente em quase tudo o que era comboio um pouco por todo o país, deve ser comercializada dessa maneira.

Esta é a forma mais fácil de adquirir os modelos para quem compra e, por inerência, a mais fácil de escoar o produto para quem vende. O fabricante deve ter no entanto, em conta, que as carruagens série 22 40 são as mais necessárias, seguindo-se as 10 69, e por fim estas em menor número uma vez que a quantidade de carruagens de 1ª classe e de 2ª da série 20 69 por composição, só em casos muito excepcionais ultrapassava as duas de cada!

Uma vez que estamos ainda em fase de pré lançamento seria pois, bom para todos, vendedor e comprador, que a forma como o produto irá ser comercializado fosse ao encontro das reais necessidades do mercado, não se repetindo erros do passado, caso recente dos conjuntos de três carruagens Wagons-Lits, que não são benéficos para ninguém!