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Um manifesto em defesa da preservação dos bairros ferroviários e da Escola Camões no Entroncamento

Publicado originalmente a 14 de Junho de 2015 – “Bairros Ferroviários VIII”

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Um manifesto em defesa da preservação dos bairros ferroviários e da Escola Camões no Entroncamento

Ainda a propósito da alienação do Bairro e da Escola Camões pela REFER

A integridade da paisagem ferroviária, em toda a sua extensão física – da escola Camões à estação – e cronológica – dos finais do século XIX até inícios da década de 1940 -,por apresentar uma diversidade formal muito representativa da evolução das habitações e das estruturas sociais ferroviárias em Portugal deve, em nossa opinião, ser integralmente preservada.

Possui valores histórico-culturais, artísticos, sentimentais e económicos que, embora em escalas diferentes e por razões nem sempre coincidentes, representam uma mais-valia para o país, para as empresas ferroviárias, para região e, sobretudo, para o Entroncamento.

Passando em revista os marcos da arquitectura ferroviária até finais dos anos 30, é possível identificar, no Entroncamento, as seguintes fases:

A inicial, que se estende até pouco depois da implantação da República, que corresponde a um modelo internacional, repetido pelos construtores um pouco por toda a Europa. As pequenas diferenças, ao longo das redes e das linhas resultam, essencialmente, da introdução de elementos da arquitectura regional, bem como da aplicação de materiais tradicionais. No Entroncamento, o bairro da Caixa de Socorros Pensões e Reformas (vulgo Bairro do Boneco), com planta aprovada em 1900 e construído em duas fases nos anos seguintes, corresponde a este modelo. Formalmente aproxima-se dos bairros operários urbanos do século XIX.

Na segunda década do século XX, inicia-se uma nova fase que recebe as influências da “casa Portuguesa”, de Raul Lino. Os edifícios, mantendo ainda uma grande rigidez estrutural, passam a integrar elementos e materiais que lhe conferem uma maior dinâmica e que, simultaneamente, lhe acentuam a rusticidade. É exemplo muito marcante a Vila Verde. Conjunto de construções inaugurada em 1919.

Em 1923 é criada a Divisão de Construções da CP, com uma equipa técnica que integra os arquitectos: Perfeito de Magalhães, Conttinelli Telmo e Luís da Cunha. A arquitectura ferroviária ganha então uma nova dimensão, visível na melhoria substancial dos espaços e dos edifícios. Em 1924, os dois últimos arquitectos projectam para o Entroncamento um novo bairro, seguindo o conceito das Vilas Jardins, que proliferava pela Europa, e desenhando as vivendas de acordo com a gramática da casa portuguesa. Este espaço, concluído em 1927, é o bairro Camões. Junto a ele, com projecto de 1923 e inauguração em 1928, está a Escola Camões. Sobre ela escreveu João Paulo Martins (1996), “As características técnico-fundamentais do edifício da Escola Camões […] mereceram dos dois arquitectos um rigor que na época era invulgar. Contudo, as qualidades mais originais e interessantes dessa obra iam resultar do extraordinário sentido lúdico que souberam conferir à arquitectura. O vestíbulo principal, no centro da composição, ia constituir o modelo fulcral dessa pesquisa: um encadeado de espaços ambíguos que acentuava a flexibilidade das suas funções de uso numa teia de planos desmaterializados, de interpenetrações e transparências. Os azulejos que revestiam as colunas esquinadas e as paredes, com o seu padrão de forte contraste, provocam uma multiplicidade de reflexos que criava um efeito de labirinto. A vibração da cor e do espaço era ainda sublimada pelo colorido dos pavimentos e pelas decorações pintadas nos tectos e nas paredes, igualmente concebidas por Conttinelli. Com toda a sua exuberância formal a Escola Camões condensava grande parte das experiências desta fase inicial da carreira de Conttinelli Telmo. Ficou sendo uma obra isolada e irrepetível num percurso onde se revelariam extremamente raras outras oportunidades para a concretização de um semelhante investimento.”

Ninguém fica indiferente àquele edifício.

Mas, para além do valor arquitectónico, já de si mais que suficiente para a sua preservação, traz consigo uma memória escolar: foi primária, de aprendizes da CP, do primeiro ensino secundário alterativo ao técnico – o Liceu, por onde passou a caminho das faculdades uma geração de Entroncamentenses – e onde nasceu a primeira instituição para pessoas com necessidades especiais – o CERE.

Em 1930, na rua Eng.º Ferreira Mesquita, entre a Vila Verde e o Bairro Camões, surgem as Casas da Via e Obras, ou Bairro Castanho. Constituem a parte mais desinteressante do conjunto, mas contribuem para a coesão do todo.

Nesta mesma rua temos o Armazém de Víveres, o único aproveitado para integrar o complexo do Museu Nacional Ferroviário. Inaugurado em 1939, constitui-se como o ícone desta tipologia de edifícios. É fruto da evolução do trabalho de Conttinelli Telmo na concepção destes espaços e na estética e do funcionalismo modernista.

Apesar de não ser conhecida documentação referente ao bairro da rua Latino Coelho e, por isso, não ser possível emitir opinião fundamentada, parece-nos inequívoca a sua relevância na paisagem, sendo o conjunto das chaminés uma das imagens repetidamente usadas na divulgação turística do concelho e das que perduram na memória dos viajantes.

Nestes conjuntos/edifícios, para além do valor intrínseco que possa ser atribuído a cada um, há uma dimensão temporal, evolutiva, que lhe confere um valor simultaneamente documental e pedagógico único, em dimensão real e à escala da cidade. Se for conjugada com o Museu Nacional Ferroviário acresce-lhe uma nova valência e uma área única na Europa, para fazer e divulgar conhecimento histórico e cultural ferroviário.

As tipologias dos bairros, alguns com espaço de jardim, habitação e horta, situados na fronteira da cidade com a ferrovia, com acessos para os dois lados, conferiam aos homens que os habitavam um dúbio estatuto de cidadão e de ferroviário, levando-os, em determinados momentos, a ser mais uma coisa do que outra. Foi entre esta duplicidade que cresceu um pouco da cultura ferroviária que moldaria o espirito dos que por aqui cresceram e que, geração após geração, foram perpetuando e aperfeiçoando uma identidade.

Estes bairros são, também, um pouco da arqueologia em que assenta a história do caminho-de-ferro e do Entroncamento, porque uma imbrica de tal modo na outra que não se podem fazer separadamente.

Quem não morou nos bairros tinha amigos ou familiares que lá moraram, quem não frequentou a Escola Camões para aprender as primeiras letras, frequentou a de aprendizes, ou o liceu ou o CERE, ou conhecia lá alguém, ou porque simplesmente esta foi uma paisagem que se habituou a ver, que o referenciou e que, por isso, ganhou uma dimensão identitária e afectiva sobre a qual já falou a filhos e a netos.

O património ferroviário edificado, no Entroncamento, constitui uma paisagem urbana que ancora muita da sua memória.

Por fim, e porque na falta de qualquer outro motivo que possa atrair visitantes que contribuam directamente para a economia e o emprego local, é necessário potenciar da melhor maneira este recurso que, como acima se referiu, é único e genuíno. Sem ele o turista chegará de comboio ou de autocarro, entrará no Museu Nacional Ferroviário de onde sairá para o transporte que o conduzirá a outro destino. Nem lhe restará tempo para ver os fenómenos, que nasceram na Vila Verde ou, simplesmente, para beber um café. Não faltam exemplos de locais turísticos onde os visitantes constituem mais um custo ecológico associado a problemas de trânsito do que um factor de desenvolvimento.

O estado de abandono em que se encontra este património resulta da incúria, do desleixo, da ignorância e da falta de sensibilidade de quem, em devido tempo, teria por obrigação garantir a sua preservação, mantendo-o integrado no quotidiano da cidade e promovendo a sua classificação.

Ao que julgamos saber, por exemplo, nunca foi dado seguimento ao previsto no artigo 112.º, da Lei n.º 107/2001, de 08 de Setembro – Lei de Bases do Património Cultural -, onde se previa a conversão dos imóveis classificados como de interesse concelhio na nova classificação de imóveis de interesse municipal. Se isso tivesse acontecido, o Bairro e a Escola Camões, listados no artigo 77.º da Resolução do Conselho de Ministros n.º 181/95, estariam agora salvaguardados.

Chegada a degradação a este ponto, conhecendo o que tem sido a actuação da REFER e o continuo desinvestimento no caminho-de-ferro, seria previsível a sua alienação e, muito provavelmente, a sua demolição e/ou completa descaracterização.

A paisagem ferroviária continua, diariamente, consciente ou inconscientemente, a marcar o quotidiano dos entroncamentenses. Todos os dias atravessam as linhas e se cruzam com bairros e edifícios em degradação mais ou menos avançada, ou espaços abertos por demolições que acumulam ervas e lixo. É a qualidade do espaço urbano que está em causa, o que, como todos sabemos, tem consequências sociais relevantes.

Faz, pois, todo o sentido exigir à REFER, Empresa Pública proprietária, e ao Município do Entroncamento, que corrijam os erros do passado e se entendam na preservação dos valores públicos acima enunciados. Sabendo-se que o quadro comunitário a iniciar permite candidaturas para projectos de recuperação urbana, é urgente que se encontrem soluções e que não se perca aquela que poderá ser a última oportunidade para manter esta importante paisagem cultural.

 

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Bibliografia de referência para o texto:

- CUÉLLAR VILLAR, Domingo; JIMÉNEZ VEGA, Miguel; POLO MUIRIEL, Francisco,(coordenadores), (s/d) Historia de Los Poblados Ferroviarios en España, Fundación de los Ferrocales Españoles, Madrid.

- FERREIRA, Carlos Manuel Barbosa,(2008) “Terrenos e Edifícios” in O Foguete n.º 19, AMF, Entroncamento.

- FERREIRA, Carlos Manuel Barbosa, (2010) Os Trabalhadores da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portuguezes no Entroncamento. 1960-1910, Câmara Municipal do Entroncamento.

- MARTINS, Jaime, (1931, Junho) “Dos bairros para o pessoal da C.P.”, in Boletim da C.P., n.º 24, Lisboa.

- MARTINS, João Paulo, (1996),“Conttinelli Telmo, arquitecto” in O Caminho de Ferro Revisitado, Lisboa.

- MARTINS, João Paulo, (2010), “ Arquitectura Ferroviária até à década de 1960” in 1910-2010 O Caminho de ferro em Portugal, CP – Comboios de Portugal e REFER – Rede Ferroviária Nacional, Lisboa.

- POITOUT, Manuela, (2014),O Urbanismo Ferroviário no Entroncamento, comunicação apresentada no Colóquio História da Ferrovia no Ribatejo, realizado no Entroncamento em 29 de Novembro de 2014.

Publicado originalmente a 14 de Junho de 2015 – “Bairros Ferroviários VIII”

autor: Carlos Barbosa Ferreira