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Entrevista a Armando Lobato da SUDEXPRESS/NORBRASS

Com o anuncio de novidades 2017/2018 da SUDEXPRESS, a WebRails.tv solicitou uma entrevista a Armando Lobato, responsável da empresa AVALIARE Engenharia, que está por detrás das marcas SUDEXPRESS, NORBRASS e RTRAINS. Esta entrevista decorreu durante o primeiro encontro do grupo Módulos Comboios do Norte de 2017, no Núcleo do Lousado do Museu Nacional Ferroviário, no dia 25 de Fevereiro passado.

Armando Lobato e João Augusto

Armando Lobato e João Augusto

WebRails: Há grande expectativa nas próximas produções da SUDEXPRESS, especialmente nas carruagens SOREFAME, modelos amplamente reclamados pelos modelistas portugueses. No entanto, existem algumas críticas de alguns modelistas publicadas recentemente pela WebRails.tv (aqui e aqui), sobre a forma prevista de comercialização destas. Qual é a perspectiva da SUDEXPRESS?

Armando Lobato: Penso que as pessoas não têm considerado a visão da parte empresarial, especificamente da parte de custos, investimentos, prazo de rentabilidade, taxas de retorno, comportamento do dólar americano no novo enquadramento político dos EUA, etc., e se não houver equilíbrio financeiro não poderemos continuar a desenvolver novos produtos e continuar a satisfazer as necessidades e desejos latentes deste mercado.

WR: Mas, a SUDEXPRESS também não pode esquecer que o próprio mercado (português e espanhol) ainda não está a funcionar normalmente, a contenção que se tem verificado nos últimos anos ainda se verifica, não teme que a venda possa não ocorrer conforme previram?

AL: O mercado é pequeno por si só, e por isso esta produção será apenas de 200 conjuntos por referencia, para tentar obter um retorno o mais depressa possível para avançar com novas produções, dos mesmos conjunto e de novos conjuntos. Não conseguimos aguentar uma venda temporal muito prolongada, pois comprometerá forçosamente a rentabilidade de negócio e as novas produções, por isso a estratégia é dinamizar pequenas produções para de alguma forma tentar dinamizar este mercado, porque a equação entre mercados pequenos e deprimidos com investimentos avultadíssimos tem uma solução muito difícil.

WR: As séries de carruagens anunciadas são muito específicas. Haverá outras séries?

AL: Sim, de versões com caixas diferentes das actuais, se tudo correr bem com estas primeiras séries. O projecto actual foi direccionado para as versões que apresentaram maior rentabilidade. Esperamos também que do lado dos modelistas, estes aprendam a diferenciar as várias versões das carruagens, porque isso será essencial para se produzirem rentavelmente mais versões diferentes das actuais, e não as confundam apenas por semelhança “inox”…

WR:.. Num artigo anterior da WR dedicado a este tema (ver aqui), foi publicada uma tabela de ajuda à identificação do que existe em termos destas carruagens…

AL:… sim, mas não está completa, faltam as versões mais recentes. Este ponto é muito importante, para que os modelistas possam efectivamente reproduzir composições reais que têm utilizado as várias versões destas carruagens, à semelhança do que já podemos fazer de comboios de mercadorias. Gostaria de ver aproveitada essa potencialidade nos encontros que se vão fazendo pelo país, coisa que nem sempre se vê.

WR: Os modelistas ainda reclamam mais matrículas dos vários modelos existentes…

AL: … sim, sabemos isso, mas os Kbs e os Gbkks levaram entre 2 a 4 anos a serem vendidos, e ainda existem algumas quantidades em stock. Isto é muito tempo e compromete a rentabilidade do projecto, por isso, novas matrículas destes modelos não serão produzidos para já.

WR: E o gerador?

AL: Infelizmente, neste momento está completamente fora de questão, porque ia ficar caríssimo.

WR: Temos assistido à internacionalização da SUDEXPRESS, com a EURO 4000 e diversos tipos de vagões. Tem valido a pena?

AL: Sim, felizmente tem corrido bem, os mercados estão mais dinâmicos, e sobretudo absorvem maiores quantidades, com níveis de rentabilidade e taxas de retorno muito boas, muito superiores às do mercado nacional. Tem sido esta estratégia que tem permitido à SUDEXPRESS continuar a produzir modelos portugueses nas condições muito precárias de mercado dos últimos anos, é uma aposta ganha e que vai continuar. Para ter uma noção de dimensão, da EURO 4000 já se produziram cerca de 6000 unidades entre as várias versões, comparado com a previsão que tenho para a CP 2500/2550, que entre todas as versões atinge apenas as 2000 unidades. Como pode entender, repartir custos semelhantes entre 2000 unidades e 6000 unidades obriga a modelos de negócio completamente diferentes…

WR: Falando da CP 2500/2550, o ponto fraco que temos ouvido dos modelistas relativamente ao som, vai ter alguma melhoria nas próximas versões?

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Novas versões da CP 2550

AL: As novas versões serão produzidas com uma nova caixa-de-ressonância, permitindo rectificar a deficiência de que as pessoas se queixam. Mas repare, se estiver numa situação de pouco ruido ambiente, o som é satisfatório, mas realmente em situações de mais ruido o som torna-se difícil de ouvir…

WR: Mas não se esqueça que o termo de comparação que os modelistas têm é o da CP 1400, que é audível em qualquer situação…

AL:… exactamente, é mais audível, mas não se esqueça que mesmo em situação real, uma máquina diesel é forçosamente mais ruidosa que uma máquina eléctrica.

WR: Os modelistas que já adquiriram as duas versões postas à venda poderão fazer o retrofit?

AL: Sim, poderão fazê-lo, terão apenas de desmontar a caixa de som que existe nesses modelos e montar a nova caixa. Na prática é inverter o sentido do speaker, que nestas primeiras versões está voltado para baixo e nas novas estará voltado para cima.

WR: E que custos terá?

AL: Quem quiser fazer a alteração, basta sinalizar na loja onde adquiriu o modelo, que a SUDEXPRESS disponibilizará as novas caixas de som a custo zero. A substituição é muito simples, sem qualquer dificuldade.

WR: E relativamente à disponibilidade das restantes versões, quando serão comercializadas?

AL: O que temos programado, acreditando que o ritmo de produção e de venda dos modelos já comercializados se irá manter, em Abril iremos comercializar mais duas versões, e em Junho iniciaremos a comercialização de todas as restantes versões de ambos os modelos.

WR: Poucos dias antes da abertura da exposição de Nuremberga, a SUDEXPRESS publicou um catálogo dos novos projectos. Poderemos dizer que para além do que já tinha sido anunciado pela marca, a grande novidade é a CP 1900/1930. Com esta produção, entre SUDEXPRESS e NORBRASS, praticamente todo o parque de locomotivas diesel da CP e não só, estará já reproduzido à escala H0, faltando apenas a CP 1200 e os tractores com excepção do Sentinel.

AL: Sim, é um facto, as duas máquinas utilizarão o mesmo molde, que servirá também para produzir posteriormente a CP 1960, que embora ainda não esteja anunciado, posso já adiantar que, em termos de locomotivas, será o projecto seguinte.

WR: A nível de inovação técnica, verificamos que o modelo da CP 2500/2550 vem já preparado de fábrica para instalação da digitalização com som, e que os testes de tracção e fiabilidade são muito bons, com uma assinalável evolução relativamente ao modelo da CP 1400. Quais serão os próximos passos nesta estratégia?

AL: Serão os kits de sistemas de fumo e ventilação na CP 1900/1930 associados à versão digital. Existirão apenas duas possibilidades de aquisição, ou analógica ou digital com som, ventilação e fumo e luzes de cabina. Esta evolução é feita em parceria com a ESU.

WR: Voltando às carruagens, e o projecto das carruagens SCHINDLER?

AL: O projecto não parou, pelo contrário, recebi muito recentemente o desenho tridimensional, mas não foi anunciado para não gerar espectativas de curto prazo, pela quantidade de projectos em curso que se podem ver no novo catálogo. Vamos avançar com as SOREFAME e se tudo correr como planeado, sobretudo sem grande perturbação do lado económico-financeiro, seguem-se as SCHINDLER em final de 2018. Será um projecto da SUDEXPRESS.

WR: E as carruagens-cama ex-CIWL?

AL: Como sabem, as carruagens são fabricadas com base num molde da LS Models. O fabricante da LS Models, a Modern Gala, faliu em 2014 e a LS Models levou estes 2 anos para conseguir recuperar os moldes que ficaram bloqueados e que eram sua propriedade, não do fabricante. Felizmente, no final do ano passado, confirmaram-nos que conseguiram recuperar e iniciar a reparação dos moldes desta linha de produto. Com base nesta confirmação esperamos que entre o final de 2017 e o 1º semestre de 2018, seja possível comercializar as carruagens do tipo S que ainda faltam. Vamos aguardar.

WR: Mesmo as versões transformadas pela CP?

AL: Incluindo essas. Mas, só as anunciarei, quando estiverem feitas, para não criar falsas espectativas e leituras diversas sobre as razões dos atrasos que infelizmente sempre acontecem. Já agora, o mesmo se aplica à CP 4700, o projecto está vivo, e assim que possível, serão produzidas e comercializadas.

WR: Boas notícias para os modelistas portugueses!

AL: Mas há mais, não sei se sabem, mas o fabricante francês REE vai produzir as carruagens couchettes tipo UIC-Y da SNCF, inclusive nas versões WASTEELS que circularam também em Portugal e Espanha. Vamos alargar a parceria entre a SUDEXPRESS e a REE de vagões de mercadorias para estas carruagens couchettes em versões específicas para Portugal e Espanha, que estará disponível em 2018, e também para o tractor MOYSE versão 1050 da CP e versão SAPEC, do qual vamos aproveitar o chassis que é idêntico às versões francesas. Este projecto só deverá estar disponível em 2019.

WR: A propósito de parcerias, existe colaboração entre a SUDEXPRESS e outros fabricantes nacionais?

AL: Não há colaborações no sentido estrito do termo, mas há colaborações pontuais, especialmente em projectos de maquetes para instituições e empresas, em que recorro a esses fabricantes artesanais. As nossas são produções próprias como as desses fabricantes também são produções próprias.

WR: E para a NORBRASS, quais são os planos para esse nicho de mercado?

(NDR: À data desta entrevista ainda não era conhecido anuncio feito em meados de Março sobre o fim da produção da NORBRASS. Para mais detalhes ver o artigo aqui.)

AL: Não sei muito bem. Para a semana irei à Coreia do Sul tentar encontrar uma solução para o projecto da Nohab, já que o fabricante que tínhamos contratado faliu, e já tive de dar por perdido todo o investimento que fiz neste projecto. Um dos objectivos será tentar recuperar o tooling, moldes e motores e encontrar um fabricante alternativo para dar continuidade ao projecto.

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O protótipo do modelo NOHAB

WR: Mas o problema que havia na motorização que era a razão principal do atraso na comercialização ficou resolvido?

AL: Não, não ficou. Terei de avaliar no local com o fabricante alternativo que espero encontrar, uma alternativa para resolver o problema. Neste momento é uma grande incógnita. Já me darei por satisfeito se conseguir terminar os dois projectos, Nohab e ambulâncias postais longas e curtas.

WR: Relativamente às ambulâncias postais, não foram já comercializadas todas as versões?

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Detalhe de uma ambulância postal da NORBRASS

AL: Não, em ambos os casos faltam várias versões e matriculas, apenas uma pequena parte foi entregue.

WR: E novos projectos NORBRASS ficam completamente postos de lado?

AL: As condições para produzir em latão na China e na Coreia alteraram-se radicalmente no último ano, com um aumento do risco enorme. Actualmente não existem mais que uma meia dúzia de empresas a comercializar modelos em latão, com quantidades cada vez menores e todas em dificuldades com as produções na Coreia e na China, como a NORBRASS.

WR: A maioria dos actuais modelistas está numa faixa etária entre os 40 e os 60 anos, e por questões colocadas noutras entrevistas, apercebemo-nos de esforços de algumas marcas em atrair faixas etárias mais baixas para o hobby do modelismo ferroviário. A SUDEXPRESS tem algo do tipo em mente, do tipo de aproveitar restos de stocks para formar conjuntos de iniciação atractivos para os mais novos?

AL: Não, não temos essa possibilidade, porque é completamente inviável para uma marca portuguesa como a SUDEXPRESS, no mercado português, poder comercializar esse tipo de produto, porque mesmo os conjuntos base também exigem investimentos que não podemos fazer, para além da completa incógnita do valor potencial desse mercado. O mercado da SUDEXPRESS e da NORBRASS é o mercado do colecionador de gama média-alta e alta. A nível de iniciação deixamos o mercado para as marcas mais generalistas, cuja base são mercados bem maiores, como o mercado alemão, francês ou italiano, sendo que os jovens que realmente se vierem a interessar, evoluem depois para o mercado de coleccionismo, que é a principal característica do mercado de material português.

WR: Outro anúncio recente foram as cisternas. Para quando a comercialização?

AL: Os ZAES vão já começar a sair em Abril. Se se venderem bem avançaremos com a produção dos de transporte de biodiesel e dos de transporte de nafta, que ainda não foram anunciados, para o final do ano, início de 2018. Quanto às cisternas americanas, era um projecto que já está há muito tempo a ser pensado, pois existe uma variedade muito grande de versões, inclusive versões de marcas emblemáticas do nosso passado, que já não existem, como por exemplo a SACOR. Surgiu agora a oportunidade, mas produção só em 2018.

WR: Há uns anos assistimos à experiencia de vender os balastreiros em kit. Foi só experiência ou vai ter sequência?

AL: Foi uma experiência didáctica, para tentar fazer compreender aos modelistas a complexidade daquilo que eu considero que foi um dos melhores modelos alguma vez produzido pela SUDEXPRESS para o mercado nacional. Para tal, o preço era bastante atractivo, por comparação ao preço de venda do modelo montado, mas mesmo o modelo montado tinha um preço muito atractivo para a complexidade e detalhe que se produziu. A nível comercial foi um projecto sem valor acrescentado. Os kits em Portugal são uma aposta que não faz sentido, pois não temos modelistas suficientes para justificar a produção em quantidade a preços interessantes.

WR: E novas produções de vagões que já foram produzidos há bastante tempo, como por exemplo os cerealeiros da AVIBON, estão nos vossos projectos recuperar novas versões e novas matrículas?

AL: Sim, podemos pensar nisso. Mas precisamos de arranjar espaço entre os projectos nacionais e internacionais que temos em curso, pois é preciso capacidade humana e financeira para os por em marcha. Só como nota, posso informar que também estamos a pensar em produzir uma linha de vagões de marca, como acontece lá fora, portanto, versões de vagões nacionais que nunca existiram, mas que os coleccionadores em geral apreciam por exporem marcas nacionais, e que ajudam a rentabilizar moldes.

WR: Como correu a participação na feira de Nuremberga 2017?

AL: Foi interessante, como sempre, mas, infelizmente, continuo a observar uma tendência de descida no número de expositores e de visitantes, como foi o nosso caso, que este ano estivemos no stand do nosso distribuidor na Alemanha, a LEMKE. Isto porque não tínhamos grandes novidades internacionais para lançar e também não tínhamos protótipos que justificassem o investimento financeiro e a participação com stand próprio. A Feira de Nuremberga funciona como um ponto de encontro entre fornecedores e clientes, mas hoje em dia há outras formas de fazer estes encontros, e por isso considero que o interesse neste caso estará a diminuir no caso do modelismo ferroviário. Existem outras feiras que estão a aumentar de interesse como a de Dortmund, em que também vamos participar com a LEMKE, onde vamos conseguir finalmente apresentar o protótipo da EURO 4000 em escala N. Este é um caso onde temos sido abordados para versões exclusivas para lojas, que vai ser uma novidade para a SUDEXPRESS, e a comercialização acontecerá no verão.

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Gama da EURO 4000 em escala N

WB: E projectos na área das locomotivas a vapor?

AL: Existe estudo em curso, na SUDEXPRESS.

WB: E para a RTRAINS, qual é o futuro?

AL: Ainda nada está decidido, aguardamos desenvolvimentos de parte da HERIS.

WB: E o projecto dos kits de cenário, como a casa alentejana, apresentados na ultima LOCOMODELS? Continuará?

AL: Estará para breve!

WR: Como corolário desta nossa conversa, há muitos projectos em pipeline

AL: Sim, felizmente, e espero que haja dinheiro da parte dos modelistas nacionais e estrangeiros para nos poderem acompanhar, desenvolvendo um dos hobby mais interessante que existem. Estou muito contente de ver hoje aqui no Lousado, uma série de circulações realistas, o que significa que o modelismo também se está a desenvolver neste sentido, mais hobby, menos brinquedo, sendo que a equipa também tem em projecto começar a divulgar composições realistas a partir das nossas referências de comercialização.