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Modulos de Comboios do Norte – Entrevista com Jorge Osório

No final de Fevereiro de 2017, a WebRails foi ao 1º encontro de 2017 do Grupo de Módulos de Comboios do Norte (ver artigo aqui), que está instalado no Núcleo do Lousado do MNF, numa instalação permanente, exceptuando quando participam em eventos de modelismo ferroviário. Um dos animadores é Jorge Osório, (jorge.osorio@sapo.pt) modelista experimentado e autor de alguns dos módulos expostos.

João Augusto com Jorge Osório

João Augusto com Jorge Osório

WebRails: Como apareceu o Grupo de Módulos do Norte?

Jorge Osório: A procura de uma maneira mais simples de adquirir os modelos de que gosto, levou ao conhecimento do Álvaro Sousa da Linha do Norte (aficionado, reparador e representante de algumas marcas de material para este hobby). Por volta de 2006 aparece na Linha do Norte um outro aficionado, Jorge Seia, e numa simples conversa surgiu a ideia de fazermos uns módulos e se juntarem como na altura já se fazia em Espanha. Em geral, temos casas pequenas onde não conseguimos ter o prazer de ver as composições a circularem, porque quando as pomos a circular, normalmente a locomotiva vai a ver a ultima carruagem da composição (risos), fazendo cada um os seus módulos, podemos levá-los para algum lado e ao juntá-los poderemos disfrutar, brincar ou jogar com os nossos modelos numa forma muito mais interessante. A divulgação em alguns fóruns sobre a ideia dos módulos criou raízes, e resolvemo-nos juntar e começamos a pensar o que deveríamos fazer.

WR: Poderemos dizer que esse terá sido o primeiro encontro! E o que aconteceu depois?

JO: Sim, de facto, e por acaso eu não estive presente, por indisponibilidade, mas como nos fóruns já tinha apresentado as minhas ideias, estas foram tidas em conta. No 2º encontro, decididos avançar com as normas Maquetren e aí foi o verdadeiro pontapé de saída. Aliás, eu levei comigo, já, o meu primeiro módulo que obedecia a essas normas e de facto as pessoas puderam ver a simplicidade e a facilidade com que se podia fazer uma estrutura destas. Depois a decoração já seria ao gosto de cada um e de acordo com as suas capacidades de modelismo.

WR: Quantos módulos fizeram nesse passo inicial?

JO: Cada um fez vários, não sei dizer ao certo, mas logo apareceu outro problema. Onde vamos por os módulos? Porque entretanto, cada um tinha feito 1 módulo, o que perfaz praticamente de 3 a 5 metros e começaram logo os problemas de espaço em casa de cada um.

WR: Foi então que deram os primeiros passos para uma exposição conjunta?

JO: Sim, mais uma vez um dos nossos elementos arranjou um local onde pudemos estar algum tempo, ainda sem qualquer exposição ou conhecimento publico. Foi nessa altura que após uma série de encontros, conseguimos fazer uma estrutura fechada de vários módulos. Para nós, à data, foi um acontecimento épico e que nos proporcionou um gozo imenso.

WR: E depois, qual foi o passo seguinte?

JO: Foi o crescimento e aperfeiçoamento técnico e cénico dos módulos. E o espaço que no início era grande, passou a não chegar. Foi aí que começamos a procurar outro local, porque a produção de módulos continuava, tal era o entusiasmo que tínhamos. Entretanto começamos a pensar em fazer uma exposição, de apresentação ao público. E local, pensámos nós? Decidimos que tinha de ser num contexto em que fizesse sentido. Se fosse num local sem ter nada a ver com comboios, as pessoas não iam ligar nada. Nessa altura, como já conhecia este núcleo museológico, já tinham sido feitas as obras de instalação da via larga para Guimarães, este próprio museu também tinha sido renovado, ficou a decisão de contactar este núcleo museológico e perceber do interesse em nos acolher para uma exposição. No contacto com o núcleo do Lousado houve logo uma abertura grande e grande interesse, com uma maior valia pela nossa presença aqui.

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E assim instalámos os módulos e fizemos uma campanha de informação no Facebook e nos fóruns, e começaram a aparecer as pessoas e os convites para participações várias. Actualmente os módulos estão em exposição permanente, depois da nossa participação na reinauguração do MNF no Entroncamento à 2 anos atrás. Participamos em outras exposições como a Bragabrinca, que teve mais de 30.000 visitantes. Estas participações são sempre muito intensas mas do ponto de vista logístico é sempre o mais complicado.

A mudança para este novo espaço dentro do museu é recente, com grande valia, porque estamos com o material ferroviário real, e o museu ficou com uma sala disponível para outras exposições temporárias, aumento assim o interesse deste núcleo museológico.

WR: Actualmente quantas pessoas pertencem a este grupo? E em que faixas etárias?

JO: Somos 11 amigos, e há pessoas desde os 25 anos até aos 70 anos. Mas procuramos atrair juventude para o nosso meio, apesar de ser muito difícil. Dificilmente as pessoas se deslocam ao Lousado, por experiencia própria. E ao Entroncamento também. Infelizmente o MNF não está nas localizações onde as pessoas se possam deslocar com facilidade sem perder muito tempo na deslocação. Vejam o caso do Museu das Delicias no centro de Madrid. Veja o exemplo do museu do Côa, quem é que lá vai?

WR: E o caso de Mulhouse em Franca?

JO: Fica depois dos Pirenéus, é outra postura, são países muito mais agarrados ao caminho-de-ferro e estão muito abertas. Além disso, Mulhouse está em França, perto da Alemanha, Luxemburgo, Bélgica e Suíça. E tem um afecto por este hobby, do qual ainda estamos muito distantes.

WR: Colaboram com outros grupos em Portugal, como por exemplo a APAC, o CEC e mais recentemente o CIMH0?

JO: Não, não temos estrutura formal para nos juntarmos a um desses grupos e preferimos manter-nos espontâneos. Apesar de conhecermos pessoas em todas elas. O que existe é apenas de âmbito informal, claro que queríamos, mas as coisas são sempre dificultadas pela parte logística e pelos custos. Apesar de tentarmos participar sempre nos eventos propostos por outras associações. E vamos tentar participar no próximo do CIMH0, no Entroncamento, normalmente é mais atractivo que o Lousado e um pouco mais central. E também pelo contacto que temos também com os modelistas espanhóis. Hoje estão aqui 2 modelistas de Espanha.

WR: A CP não ajuda?

JO: Infelizmente a CP não ajuda, para além dos descontos habituais de grupo ou de compra antecipada, e o MNF também podia influenciar, mas tanto quanto sabemos, não acontece ou não conseguem.

WR: Este encontro hoje junta a apresentação dos novos modelos das locomotivas 2500/2550 da Sudexpress Scale Models. Como modelistas, o que é que gostariam de ver mais dos fabricantes nacionais em termos de modelos nacionais para tornar o hobby mais atraente?

JO: Claro que gostaríamos de tudo o que pudesse ajudar a reproduzir comboios reais portugueses. Mas reproduzir este tipo de modelos não é o mesmo que produzir outro tipo de brinquedos. Apesar da nossa relação com o Armando Lobato ser muito boa e muito próxima, por vezes é difícil perceber porque dá prioridade a determinados modelos em detrimento de outros. O fabricante tem a sua perspectiva de oportunidade de negócio, e por isso queremos é que tenha sucesso. No meu caso pessoal, não sou amante do material eléctrico, prefiro material diesel e sobretudo locomotivas a vapor. Apesar de este modelo ser absolutamente excepcional. O que eu aprecio é que continue a existir alguém que queira reproduzir o material português! Acho que está tudo dito! É ver qualquer catálogo de material rolante para 2017, que se preze em apresentar algum modelo português.

WR: A maioria de nós, modelistas com mais de 40 anos, começou com modelismo de modelos estrangeiros, maioritariamente alemães e portugueses…

JO: Para quem goste tudo bem, mas eu identifico-me mais com o material português, e muitos também comprámos para modificar para português!

WR: Têm página e Facebook próprio?

JO: Sim, temos, apreciamos e queremos ajudar tudo e todos que possam divulgar o hobby e estes grupos de divulgação, participação e animação. Actualmente um dos maiores problemas é a falta de lojas, que hoje em dia praticamente desapareceram, mas por outro lado temos as lojas virtuais, hoje os brinquedos são outros. Os comboios não fazem parte do sonho/imaginário dos jovens, excepto para aqueles que crescem no meio. Por exemplo, o ensino acabou com os trabalhos manuais, disciplina muito importante para habilitar jovens para o modelismo ferroviário e outros, o só gostar não chega, é preciso aprender e querer.

WR: E a digitalização do jogo não contribui para atrair os jovens?

JO: Talvez, mas teremos de esperar para ver, vejam o caso do Lego Technics, hoje há imensos adultos à volta do produto, é preciso dominar o conceito para conseguir praticar. Conheço pessoas que fazem parte de grupos da Lego, e na vertente dos comboios, e vejo que a Lego tem um crescimento exponencial nessa área mais tecnológica, como felizmente é o caso dos comboios.

Nós estamos sempre disponíveis para explicar como fazemos as coisas, é talvez o maior gozo deste hobby, a maioria das pessoas que nos procura, depois de ver, e perceber que é acessível, começam a desenvolver o interesse pelo mundo do modelismo ferroviário. Vamos continuar apostar no crescimento deste hobby, e gostaríamos que outras associações também nos contactassem mais, isto sem qualquer aspecto negativo, temos de nos conhecer, temos de nos encontrar, temos de colaborar entre todos, temos de participar mais nas coisas uns dos outros, é o meu desejo!

Quem se quiser juntar a nós, é só aparecer e participar! E quem nos quiser nos respectivos eventos, só tem de nos contactar e nós procuraremos participar.