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Olhar de um Passageiro Comboio Histórico 1

Sexta feira, é sempre na sexta feira. Desta feita, mais um dia de sair em busca de novos caminhos. O percurso já o conheço muito bem. Agora o que venho experimentar, desta vez, é que já é diferente: o comboio histórico só que com o vapor produzido pela locomotiva 0186 a diesel.

Por causa dos meus horários de trabalho a viagem de comboio até ao Porto, para um passeio comboio histórico do Douro, teria de ser o mais próximo do fim do dia. Escolhi o Alfa 127 com partida de Lisboa Oriente pelas 17:09.

Como sempre, cheguei lá quase meia hora antes da partida do comboio. Algo curioso foi calhar novamente a carruagem 6. Não sei se é sorte ou não, mas para não variar, tanto a ida como o regresso, seria nessa carruagem.

Ao longe aproximava-se o comboio e na estação surgia, com ele, o anúncio: vai dar entrada na linha … Cada vez mais perto torna-se perceptível a aproximação do 4005. Tomei rapidamente o meu lugar. Arrumei toda a tralha com que me fazia acompanhar.

Desta vez, voltei a sair com a minha senhora, para um fim de semana a dois longe da cidade Lisboa. De maquina em punho, lá fomos tirando umas fotos à paisagem. Aproveitando a sucessão de cenários já conhecidos como se fosse a primeira vez que por ali passávamos.

O comboio seguiu sempre à tabela até Coimbra-B. Ali efetuava-se a primeira paragem. Sem nenhum incidente ou atraso, a jornada seguiu ate Aveiro, onde paramos novamente, e Vila Nova de Gaia, ultima paragem desta viagem antes do seu termino.

Atravessar o Douro e contemplar a bonita cidade do Porto da janela do comboio é sempre algo notório de se ver. Entramos no cais de Campanhã à tabela e estava na hora de mudar para a linha 2. Aí seguimos de comboio suburbano, era um dupla de lilis, ou melhor, 2240. Um curto percurso e chegamos a São Bento. Muita gente desembarcou nesta emblemática estação, terminal das linha do Douro e Minho.

Deixamos a estação para trás e começamos a descer a principal artéria do Porto para rumar à Ribeira. Aí ficava o nosso apartamento para os próximos dois dias. Não foi difícil encontrar. Estava inserido num prédio antigo que o proprietário alugava. O apartamento, mobilado, era pequeno e acolhedor. Gostei bastante do sitio e não foi nada caro.

Visto que o espaço tinha cozinha começamos preparar o jantar, para descansar. A amanhã seguinte seria um grande dia de aventura no mundo dos comboios.

Como sempre ouvi dizer: de manhã é que se começa o dia! Levantamos cedo, perto das oito horas. Preparei o pequeno almoço. Não havia nada melhor do que uns bons cereais para alegrar uma manha.  Nas calmas deixamos o apartamento e acertamos a agulha, a pé, para a estação de São Bento. O percurso foi feito muito devagar, aproveitando sempre para bater umas chapas da vaidosa cidade do Porto.

Em São Bento apanhamos o comboio para Guimarães, com partida 10h20. Saímos em Campanhã. Faltava quase uma hora para o comboio da Régua. O tempo de espera pela ligação deu para ver o movimento e abriu o apetite para fotografar o material circulante espalhado pela estação.

Apanhamos o Inter-Regional 865 com partida as 11:15. O almoço iria ser novamente no Peso da Régua. Mas com menos tempo do que da ultima passagem por lá.

O comboio seguiu sempre à tabela, primeiro pela linha modernizada, depois pela que espera pelo Ferrovia 2020, até entrar na parte que fascina qualquer pessoa – a troço de linha onde os comboios namoram o Rio Douro.

Sempre à tabela fomos percorrendo todas as curvas, contracurvas, estações, apeadeiros, túneis, pontes e pontões, do ímpar vale do Douro. Chegarmos à estação da Régua. O pé assentou na plataforma do cais de embarque e o espírito do vapor começou a entrar cada vez mais dominar a nossa presença.

Envolvimento que crescia à medida que se aproximava a hora de entrar dentro daquele mítico comboio que nos iria levar até à bonita estação do Tua. Mas, claro, antes tinha de ir almoçar. O dia ia ser bastante quente e longo.

Acabamos por almoçar no restaurante Régua 2002 – um muito bom restaurante – onde se come uma das melhores francesinhas que já experimentei até hoje.

Na rua, ao sol, não se podia estar. O calor fazia-se sentir pesado para passeios antes da jornada ferroviária. Mas era sobre esse sol e calor que na estação a composição histórica se mostrava para mais uma viagem. Os participantes naquela viagem no tempo, pouco e pouco, iam chegando e tomando posição nos seus lugares.

No entanto, perto do momento de partida e com comboio já quase lotado quando, aterrou uma má noticia. O Inter-regional estava a circular com mais de 10 minutos de atraso.  A indicação significava que nós também vamos sair daqui atrasados. Bem dito e bem feito. Acabamos de sair com quase meia hora de atraso, e com um calor abrasador dentro do comboio.

A janela aberta relegou a má sensação para o esquecimento. Voltei a sentir-me como uma criança. Maravilhada pelo ambiente, absorvida pela paisagem, com os cabelos ao vento, a desfrutar até ao Pinhão!

Cada vez que passo na estação, adoro revela como se fosse a primeira vez. Seduz-me a beleza da paisagem em que está inserida, a história que a envolve, e principalmente as representações dos painéis de azulejos presentes no edifício principal da estação. No Pinhão era possível entrar na locomotiva e visitar o interior da cabine. Acabei por não o fazer. Deixei isso para os mais novos e curiosos.

Após a paragem, cerca de vinte minutos, voltamos aos carris para rumar ao Tua. Apenas e só quando o grupo tradicional de cantares esteve presente na nossa carruagem é que foi possível ver alguma interação de todos os passageiros presentes naquela carruagem. No resto do tempo acabaram por não se integrar em toda a viagem, principalmente porque maior parte deles vinham do pacote barco e comboio.

Entre o Pinhão e o Tua a viagem no vale do Douro é extremamente bonita e de uma admiração fantástica. Alheamento que se prolonga até passarmos ao afluente do rio Tua, onde temos de levar com a estupida parede de betão. A opção foi um verdadeira assassínio ao bonito vale Tua e Douro.

Na estação do Tua termina a primeira parte da passeio no comboio histórico. Ai a locomotiva recua no tempo e vai fazer a sua habitual inversão de sentido. A manobra desenvolve-se enquanto todos os passageiros procuram refrescos, à sombra para se abrigarem do calor, que marca grande presença neste dia de Julho.

Fim Parte 1