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Comboio de Sal e Açúcar em destaque no CineRail

A produção luso moçambicana “Comboio de Sal e Açúcar” vai estar em destaque no primeiro dia do 22º CineRail. Este ano o Festival de cinema ferroviário tem lugar em Lisboa, nas salas do cinema São Jorge, entre os dias 27 e 29 deste mês.

O programa passa a película no primeiro dia de festival – 21h15 com entrada livre – como longa metragem extra competição. O filme já circulou pelas salas nacionais, só que a passagem revelou-se discreta, pelo que será uma oportunidade para ver o filme.

A história tem como pano de fundo o norte de Moçambique em cenário de guerra civil. Contexto onde recupera as viagens de comboio com civis na zona de conflito.

“Nesse filme o comboio é o personagem principal. O comboio é um símbolo do país. O país todo vai ali dentro: mulheres, homens, os vários seguimentos da sociedade, os militares, os trabalhadores dos caminhos de ferro”.

De passagem por Lisboa, entre a ante estreia na Cinemateca e o avião para o centro da Europa para participar em mais um festival, Licínio de Azevedo disponibilizou algum do seu tempo com a webrails.tv. O tema de conversa deixou de parte o argumento e centrou-se na experiência ferroviária da rodagem, e o actor comboio.

A ideia inicial de Licínio de Azevedo para palco do filme era o corredor de Nacala. O drama é inspirado nas vidas dos moçambicanos que arriscavam embarcar num comboio que iria atravessar uma zona de conflito nessa região.

“Na época os comboios não levavam passageiros. Quem viajava fazia-o por sua conta e risco, porque não pagavam bilhete. Em troca, por vezes, essas pessoas tinham de ajudar na reconstrução da linha. Porque não raras vezes eram vários os km sabotados”.

Para contornar a situação conta: “o comboio levava travessas em madeira para reconstruir a linhas. Travessas que muitas vezes não chegavam. A sua falta originava a recuperação de travessas após a passagem do comboio, para as colocar mais à frente”.

A ferrovia, mesmo com a sombra do conflito muito perto dos carris, não se inibiu de movimentar pessoas e bens entre Nacala e o Malawi.

No entanto, o reflexo actual da exploração do carvão deitou por terra a intenção do autor rodar o filme na região. Não por não haver condições operacionais. O escoamento da exploração mineira de carvão modernizou o corredor. Mas por hoje ter a via estar renovada, o material circulante ser recente e estações a cheirar a novo. Só que essa modernização evaporou o ambiente ferroviário dos anos 80.

O grosso do filme foi assim rodado no sistema ferroviário sul, na linha de Ressano Garcia, que liga Maputo à África do Sul. “A minha ideia inicial era fazer o filme no norte, onde tem os montes Namúli que seguem ao longo da linha”, explicou.

A rodagem ficou pelo sistema ferroviário sul, onde ainda existem referência a essa época na infraestrutura. Para os planos mais abertos do filme a realização enquadrou a composição nas planícies, rochas e algum cenário montanhoso, que o sul tem. Ao norte, corredor de Nacala, foi buscar a perspectiva da janela para a pós produção.

“Filmámos o máximo no sul. Mas fomos com uma equipa reduzida ao norte para filmar as montanhas. Fizemos travellings, como se estivéssemos dentro do comboio, para acrescentar ao filme em pós produção”.

No sul, além de paisagem, produção e realização sinalizaram vários cenários para a rodagem. Nas cenas em que o comboio dividiu o protagonismo, no interior ou exterior, com os actores o director lembrou a descoberta de uma estação fantasma. Um lugar abandonado que tinha parado no tempo, lugar perfeito:

“Me deparei com um cenário prefeito. Várias casas em alvenaria totalmente destruídas, com buracos de bala”. Para o realizador o décor caiu do céu. “Uma das locações mais bonitas. Dá ideia de estúdio hollywod, que nós montamos. Mas não, estava lá, igualzinha como estava durante a guerra. Toda destruída, como nos anos 80”.

Do ponto de vista do realizador o espaço conservou-se assim porque perdeu centralidade e não a recuperou com o fim do conflito armado. Esse abandono permitiu conservar as características da destruição provocada guerra pelas estruturas.

Por causa da operação ferroviária da linha de Ressano Garcia, para a circulação não atrasar as filmagens, grande para da rodagem decorreu num ramal.

“Conseguimos uma linha onde fizemos quase todas as cenas de combate. Uma linha dos CFM que funciona irregularmente, quase desactivada. Um ramal para uma pedreira dos caminhos-de-ferro, de onde ainda é retirada pedra para a via. O ramal tinha trechos que correspondiam exactamente à linha antiga. Trechos com capim de meio metro de altura. Via que nós podíamos usar à vontade”.

Participação da Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique

Segundo Licínio de Azevedo foi um apoio muito relevante para a execução da obra. “Porque sem o apoio do CFM o filme não se fazia”,  o valor duplicaria o que tornaria a produção da longa metragem incomportável.

A empresa Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), apoiou a formação de actores na condução de locomotivas, cedência e recuperação de material circulante, disponibilização de linhas e estações, bem como a cedência de ferroviários.

A recriação da composição integrou maquinas, plataformas e furgões cedidos pelo CFM. “São duas locomotivas, um vagão cisterna, aqueles vagões dos militares – são dois no filme – mais uns sete ou oito vagões plataforma. Porque os vagões fechados não permitiam que a população fugisse durante os ataques. E dois furgões”.

Material circulante recuperado de propósito para o comboio do filme. Embora no caso das locomotivas apenas um estivesse operacional. O cronograma da rodagem não deu tempo para intervir na segunda.

“Recuperamos o motor da primeira, mas já não deu tempo para recuperar a segunda para a rodagem. Então a segunda locomotiva não tinha motor, não tinha travões, não funcionava. Era uma peça figurante praticamente”.

A falta de “travões” na segunda locomotiva esteve em evidencia na rodagem. Numa noite, contou, após o fim das filmagens num set em subida a locomotiva soltou-se do comboio e descarrilou. Saiu 200 metros da linha e obrigou à intervenção do CFM para a voltar a colocar na via. Não provocou feridos mas obrigou à intervenção de uma equipa da Portos e Caminhos de Ferro para carrilar a máquina.

“Os vagões antigos, blindados, que os militares usavam – com buracos triangulares para colocar as armas – já não havia”. Mas o realizador deu com dois vagões no depósito do CFM. “Haviam acumulado terra com o vento, e havia crescido uma árvore dentro de um vagão desses. Então tiveram que tirar a árvore e tirar a terra”.

Enredo da adaptação

No final da década de 1980, através da leitura de jornais, ouvir relatos e conversas com amigos, Licínio de Azevedo ficou a saber da história de um comboio que percorria de forma irregular a zona de guerra no norte de moçambique.

“Na época tentei fazer um documentário, mas os produtores acharam arriscado. Era uma ideia maluca e não quiseram financiar”.

A partir de 1992, já em clima de paz, faz várias vezes essas viagem. Nas saídas ouviu relatos, conversas e entrevistas pessoas que viajaram ou tiveram contacto com esse comboio durante a guerra. Com essas histórias escreveu o romance “Comboio de Sal e Açúcar”.

Já neste milénio, com o apoio de Henry Posner III, um investidor e entusiasta ferroviário norte-americano ligado ao lançamento do corredor de Nacala, o livro é traduzido para inglês.

Licínio de Azevedo conta que Henry Posner III acedeu ao livro numa deslocação a Moçambique. O amor pelos comboios levou à publicação da edição em língua inglesa na África do Sul e Estados Unidos.

Anos mais tarde, com percurso feito na escrita de guiões e realização de documentário, surgiu a oportunidade de passar o romance editado para filme.

A adaptação “Comboio de Sal e Açúcar” é a segunda longa-metragem do realizador. Para quem não viu, o filme regressa às salas nacionais segunda-feira dia 29 de Novembro no festival CineRail.

Licínio de Azevedo, natural de Porto Alegre no Brasil, reside à quarenta anos em Moçambique. Partiu para país como jornalista e escritor para fazer a cobertura do conflito pós independência, e por lá se radicou.