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Toda a ignorância é atrevida, veja-se as Audições no Parlamento

Quando dominamos o assunto e, depois, temos a oportunidade de constatar a forma como os Deputados o abordam ficamos claramente com a sensação que, no mínimo, não fazem o trabalho de casa. Tanto mais notório quando, do mesmo, nada percebem. Honra seja feita, ao PCP, que normalmente prepara bem o que está a discutir. Pode-se, ou não, estar de acordo com a óptica politica como o aborda, mas ninguém de boa-fé pode negar que sabem o que estão a dizer. Bruno Dias assim o demonstrou, mais uma vez, na Audição de ontem ao Presidente da CP/EMEF.

Dito isto, vamos então descodificar o “discurso” do Presidente da CP/EMEF, e começamos pelo contorcionismo do senhor, no que respeita às admissões de trabalhadores para a EMEF, sobretudo, quando afirma, e bem, que “Sem EMEF não há CP”.

O Presidente começou por anunciar a boa nova da autorização do governo para a entrada de mais 40 trabalhadores para a EMEF, “esquecendo-se” que foi ao abrigo do Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública, ou seja, não são novas admissões, já lá trabalham e 30 dos 40 trabalhadores, estão em Guifões, logo no Material Circulante do Metro do Porto, apenas 10 estão ligados à manutenção dos comboios da CP, em Santa Apolónia. Voltamos então ao início do problema.

O problema mais grave da CP é a EMEF. Qual é o problema da EMEF? não ter os trabalhadores necessários para reparar, a tempo e horas, os comboios da CP. Qual é a consequência na CP? Como tem comboios imobilizados, por incapacidade da EMEF em os reparar, suprime as ligações comerciais afectadas. Isto já era mais que visível quando o Governo PS começou.

O Presidente da CP/EMEF embalado então com a notícia, previamente combinada com o Governo, da entrada desses 40 trabalhadores, começa a dar um baile aos Deputados com o total de 142 admissões anunciadas (102+40) e como estes não fizeram o trabalho de casa, e apanhados de surpresa, são facilmente fintados. Volto novamente a explicar o que, por diversas vezes, já expliquei, porque o cerne do problema da falta de comboios é este e nada tem a ver com a vinda de comboios em 2023. Vejamos então:

Nas 102 admissões autorizadas anteriormente, 62 trabalhadores já trabalhavam na EMEF, em contratos a termo certo, em áreas que não a da manutenção corrente dos comboios da CP (MdP/Fertagus/Modernização dos Pendulares). Sobram então 40 vagas para admissão. Pois são esses 40 trabalhadores que irão ser afectos, quando admitidos, à manutenção corrente dos comboios da CP (só estão iniciados processos referentes a 18).

Por outro lado, saíram, este ano, para a Reforma 60 trabalhadores, todos ligados à manutenção corrente dos comboios da CP, e irão continuar a sair, até ao final do ano, mais alguns. Façam-se então as contas verdadeiras com os iniciais 102 e os agora 40.
Admissões anunciadas 142 trabalhadores (são 141, porque um, dos 40 trabalhadores ontem anunciados, não aceitou)

Considerem-se então 142 admissões, retirem-se 92 trabalhadores porque já estavam na EMEF, em outros trabalhos que não os comboios CP, e somem-se 10 trabalhadores em trabalhos CP (mas como estavam em casa a aguardar a regularização são obviamente um reforço), daqui resultam 40 novos trabalhadores para trabalhos CP e o regresso de 10 para Santa Apolónia.

Por outro lado, como saíram 60 trabalhadores para a reforma, todos afectos a trabalhos em comboios CP e, até agora, foram iniciados 18 processos admissões a que acresce o reforço de 10, sendo que nos 18, havia inscrições de alguns dos 10 trabalhadores de Santa Apolónia, agora regularizados, mas dando isso de barato, conclui-se que há, neste momento, em relação ao inicio do ano, um défice de 32 trabalhadores na manutenção corrente dos comboios CP (60 reformados-(18 admissões+10 regressos))

Então se sem EMEF não há CP e o problema da EMEF é a falta de mão de obra para reparar os comboios da CP, e quando tudo isto já era previsível no inicio do Governo PS, porque é que, quase três anos depois, o défice de trabalhadores a reparar os comboios da CP não pára de aumentar? Mesmo quando tiverem sido feitas todas as admissões dos 50 trabalhadores, dedicados aos comboios da CP, e se ninguém mais saísse para a Reforma ainda faltam 8 para não haver défice, não para reforçar.

O que foi feito não chega, é insuficiente para habilitar a EMEF e como é insuficiente para habilitar a EMEF é insuficiente para a CP, ora, nas vésperas da Liberalização isto não é bom para o Operador Pública, porque enfraquecido torna-se presa fácil, já o é da Renfe e não ficará por aqui, a continuarmos por este caminho…

Aluguer a Espanha

Sobre o aluguer de material circulante Diesel à Renfe, começou em 2011, mas os estudos são de fins de 2009, é bom não esquecer, e tem vindo sempre a aumentar e vai alargar-se ao Material Circulante Eléctrico, numa altura de liberalização do sector, não vai haver outro fim que não o transformar a CP/Longo Curso, altamente lucrativa, numa filial da Renfe, a trabalhar numa espécie de “codeshare” ferroviário. Os comboios serão sempre da Renfe e a CP vende bilhetes, nada diferente do que já é, hoje, o comboio Celta, na ligação Porto-Vigo-Porto.

Novos Comboios

Sobre a compra de comboios, que só vêm em 2023, ficará para próxima Nota. Porque é que não se reparam comboios e carruagens encostadas? Será que a influência dos Fabricantes na CP assim o exige?

Francisco Fortunato (líder Sindical do Sindefer), 5 de Setembro de 2018