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AS DIATRIBES DO COMBOIO PRESIDENCIAL

O Comboio Presidencial é uma composição ferroviária, peça histórica, que decorre do antigo comboio real e adaptado pela República, a composição oficial para uso dos presidentes.

O Comboio Presidencial funcionou originalmente entre 1910 e 1970, para transportar os chefes de estado. Em 28 de Abril de 1957, o Comboio Presidencial fez uma viagem até Sintra, para a cerimónia de inauguração da tração eléctrica na Linha de Sintra.

presidencial_CMFB_Após sair do serviço, alguns veículos foram preservados como comboio histórico.

Entre 2009 e Fevereiro de 2013, o Comboio foi alvo de profundas obras de restauro nas instalações da EMEF, no Porto, de forma a ser homologado para circular pela Rede Ferroviária Nacional.

O processo de restauro foi considerado uma iniciativa inédita em Portugal, uma vez que se debruçou sobre toda a composição, e foi composto por uma revisão da estrutura, conservação do património integrado através da reconstituição dos interiores e da recuperação dos revestimentos e equipamentos, além da reprodução de vários objetos que estavam em falta.

O restauro procurou recuperar o ambiente da Década de 1970, correspondente aos últimos anos de serviço regular do comboio.

Esta intervenção foi financiada pelo Programa Mais centro (QREN) e pelo Programa de Intervenção no Turismo do Instituto do Turismo de Portugal, e teve o apoio das empresas Comboios de Portugal, Rede Ferroviária Nacional, Marsipel e Somaia, que exigiram somas bastante avultadas.

Foi apresentado oficialmente após o restauro em 12 de Dezembro de 2013, tendo sido organizada uma viagem inaugural entre a Estação de Santa Apolónia em Lisboa, e o Entroncamento.

Após a cerimónia, o comboio ficou em exposição no Museu Nacional Ferroviário, prevendo-se a sua utilização em viagens turísticas e culturais e outros eventos.

Porém, há coisas que nem ao diabo lembram e as entidades intervenientes no processo de gestão desta composição decidiram-se pela sua utilização comercial, menosprezando a sua identidade histórica, como se de um vulgar produto comercial se tratasse.

Convém recordar, a recuperação desta composição ascendeu a valores bastante elevados que por si justificam o resguardo e preservação nas devidas condições, evitando “per si” que o mesmo fosse utilizado para fins comerciais. Isto porque foi acordado com uma empresa comercial só para este ano efetuar vinte viagens comerciais, entre o Porto e o Pocinho, num total de 7000 quilómetros de percurso no seu final. Um absurdo!

Esta composição, provavelmente no seu tempo de vida anterior, não terá vez alguma efetuado tamanha quilometragem, tendo em conta as viagens ocasionais a que estava sujeito, os percursos não iriam muito além dos mil quilómetros anuais.

É do conhecimento público que as contrapartidas provenientes da exploração deste comboio para a Fundação Museu Nacional Ferroviária, FMNF, não são nenhumas a não ser a publicidade ao mesmo.

Outro absurdo, uma vez que não foram tidos em conta aspetos da preservação desta peça de museu, ao que tudo indica, já evidencia sinais de desgaste e degradação pela utilização massiva a que tem estado sujeito.

A título de exemplo, refira-se ainda o caso do desgaste dos rodados, cujos tamanhos já não são fabricados, e a CP teve que imobilizar outras carruagens resguardadas para Museu, neste momento em estaleiro, para que o “presidencial” possa circular.

Na realidade o sentido de gestão por parte da FMNF, que evidencia uma situação financeira muito complicada e comprometedora, deixa muito a desejar, ao não ter quaisquer contrapartidas financeiras, para além de uma mera promoção por parte do operador.

As interrogações que se colocam à FMNF, à CP e IP, quem assume as responsabilidades do desgaste deste composição ou se não será um absurdo, sujeitar a mesma a um preciosismo de imagem “The Presidential”, para satisfazer os caprichos dos apetites da exploração comercial, em detrimento da preservação patrimonial, a verdadeira essência do Museu Nacional, sob a alçada da FMNF.

É bem provável que os responsáveis já se tenham apercebido do imbróglio em que se meteram, revelando um tremendo desconhecimento da realidade turístico-ferroviária, quando a CP abateu recentemente excelentes veículos ferroviários que dariam excelentes produtos comerciais, dispondo ainda de veículos para o efeito já retirados de circulação, sem ter que se massacrar e por em causa e em risco, uma das joias da ferrovia português.

Em lado algum este tipo de composições são sujeitas a esta pressão, a não ser para casos excecionais como deveria ser o caso.

Francisco Lameiras
Lousa – Castelo Branco