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O MNF enredado em si próprio

MNFrotunda_21A Fundação Museu Nacional Ferroviário, FMNF, não está a corresponder aos anseios e exigências do Museu Nacional Ferroviário, MNF.

         Este processo museológico tem seguido um percurso muito peculiar, o qual não tem favorecido nem a sua imagem, nem correspondido às expectativas, que são um sem número, assim como se tem alheado da resolução das graves questões que exigem decisão determinada, a saber.

         Uma dos aspetos que causa muita perplexidade, passa pela decisão tomada pela tutela, ao não proceder à nomeação de um presidente da FMNF, e socorrer-se de uma solução interna, cargo que passa a ser exercido rotativamente pelos membros fundadores.

         Esta decisão, afasta-se em tudo dos princípios de uma museologia dinâmica, uma vez que não há uma voz, que atue de forma autónoma, ante as inúmeras questões que se levantam e constantemente se têm adiado.

         Não deixa de ser estranho que para se substituir o anterior presidente da FMNF, a tutela tenha levado cerca de um ano e meio, não cumprido os prazos estipulados de acordo com a legislação.

         Há muito que se percebe uma paragem na tomada de medidas e decisões, uma vez que após a abertura “quase forçada” do MNF, mais nada se fez, e a FMNF em nada respondeu ao avolumar de problemas com as inevitáveis consequências que se preveem irremediáveis face à inércia criada.

         Enquanto isto a FMNF cresceu em quadros, com pesadíssimo orçamento de funcionamento, e sem resultados visíveis se tivermos em conta a proporção dos mesmos custos de funcionamento comparados com os resultados daí provenientes para o panorama museológico ferroviário nacional, que há muito reclama intervenção, mas as atuações estão reduzidas a zero.

         Tão só para recordar:

  • A demolição da unidade tripla elétrica, UTE 2001, sinónimo de indiferença e desconhecimento por parte dos dirigentes da FMNF.
  • O estado calamitoso em que se encontra o acervo museológico, abandonado, à mercê dos elementos e da delapidação, seja em Vila Real de Sº António, Lagos, Entroncamento, Pampilhosa, Sernada do Vouga, Contumil, Livração, Régua, Tua, Pocinho ou Valença! Um atentado, uma vergonha nacional.
  • Os escandalosos e duvidosos processos de abate de material circulante e componentes; neste último, e bem recente, e descurando os avisos por parte dos conhecedores que alertaram para que o mesmo fosse suspenso, para que se procedesse a uma análise aturada e cuidada, foram enviados para abate transformadores de uma UTE devidamente reparados; geradores das locomotivas Alco da 1ª séria; motores das locomotivas 2500, devidamente reparados; geradores dos locotratores Moyse e motores de tração; motores de tração das automotoras Allan de via estreita; rodados diversos; rodas raiadas de elevado interesse histórico. Componentes vendidos como sucata imprescindíveis para a salvaguarda dos veículos do MNF.
  • Os riscos que o acervo depositado nas sítios mais inóspitos, sem o mínimo de condições de segurança,  corre não apenas no que diz respeito à sua conservação, mas sobretudo integridade face à vulnerabilidade do seu estado.
  • O estranho caso da utilização do Comboio Presidencial, como produto comercial, peça única de interesse histórico e nacional, cuja reparação ultrapassou o milhão e meio de euros, a troco de uma mera promoção para o MNF, quando se sabe que na última temporada o périplo comercial, e já vai no 3º, rendeu para cima de 600 mil euros; enquanto isto, o comboio tem sido alvo de incompreensíveis desgastes nos seus interiores, já perceptíveis sem se saber quem vai arcar com as despesas de reparação dos danos.
  • A delapidação da carruagens B600, peças museológicas às quais foram retirados os rodados, para ser incorporados no Comboio Presidencial, estando estes veículos agora estacionados sobre cepos. Em anterior abate, a divisão de material da CP, enviou para abate, rodados do mesmo tipo, dos quais já não se fabricam.
  • O abandono da secção museológica de Lagos.
  • O esquecimento ostracizado da secção museológica de Valença.
  • O alheamento face ao complexo oficinal de Sernada do Vouga, qual espelho do abandono e da falta de dignidade, um espaço outrora nobre e de soberba imagem.
  • O estranho caso do incêndio da cocheira de Vila real de Santo António, onde ficaram reduzidas a cinzas três veículos únicos indiciados para “museu”, mas que a direção do MNF veio a público dizer que os mesmos não tinham qualquer interesse, esquecendo que ficaram os chassis passíveis de reaproveitamento, para logo classificar tudo como sucata. E há um veículo que se salvou quase incólume, ao caso, indiciado para museu!
  • O alheamento da FMNF, face ao levantamento da via algaliada entre a Régua e Corgo, impossibilitando dessa forma a utilização de uma área oficinal que era imprescindível para a salvaguarda do material circulante que se encontra a apodrecer aos elementos.
  • O consentido corte do acesso ferroviário à secção museológica de Macinhata do Vouga sob a responsabilidade ao anterior presidente.
  • A indecisão que paira e subsiste, no que diz respeito à questão da tutela do espólio museológico, cuja maioria se encontra por protocolar.
  • A indiferença demonstrada pela direção do MNF ao não exigir incorporação de veículos retirados de circulação, caso das locomotivas 1550 ou Alco 1500 da 1ª série, no espólio museológico, a título de exemplo, sabendo que há muitos mais.
  • O eternizado abandono das locomotivas de Gaia, das carruagens Napolli do Tua, do material da Régua ou Pocinho.
  • O estranho caso do vagão J 5008, peça única que particulares pretendiam depositar no acervo do MNF, cujos proprietários se viram na contingência de levar o veículo para Espanha onde está a ser restaurado, pressionados que foram pela ameaça de demolição como sucata por parte das estruturas da CP.

         Matéria por si suficiente par inferir que a estrutura museológica nacional não tem um plano de atuação para fazer face à complexidade das questões que se lhe colocam nem se antevê qualquer estratégia de atuação.

         Assim como, não se antevê um plano estratégico de futuro, que tenha em linha de conta a expansão do polo central do Entroncamento; qualquer estratégia que vise promover circulações especiais e temáticas; um plano integrado de dinamização das secções museológicas; não se vislumbraram por parte das entidades intervenientes neste processo, FMNF, CP, Refer/IP, Câmara do Entroncamento e outras, quaisquer procedimentos no sentido de captar verbas ou outras mais valias que pudessem minimizar os passivos acumulados e em crescendo nesta mesma FMNF.

         Creio estar-se perante uma falsa questão, quando se pugna pura e simplesmente pela garantia de atribuição de verbas que visem manter o funcionamento desta estrutura, sob pena de se eternizar, sem se vislumbrar um futuro que vise dinamizar e promover uma estrutura que deveria ter o nacional como preocupação, resumindo-se a um quotidiano de minudências, a maioria das quais alheadas da essência de um museu ferroviário de âmbito nacional.

António Pinto Pires

Ex dirigente do Museu Nacional Ferroviário

Mestre e doutorando em museologia.

Covilhã, dezembro de 2018.