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A SUCATA DA CP

Causou muita indignação o concurso público que a divisão de material da CP abriu em fevereiro de 2018 para abate da material circulante, um lote de 38 veículos, de entre os quais, os últimos veículos sobreviventes do modo de exploração de via estreita, onde se incluíam exemplares das locomotivas Mallet, de inquestionável valor, correndo o riso de ser consideradas como sucata.

A indignação pública foi de tal ordem, nomeadamente por parte da imprensa pública e alguns agrupamentos de entusiastas, que  determinou que o atual conselho de gerência da CP Comboios de Portugal, tenha suspendido o referido abate.

Desconhecendo-se no entanto que futurologia se aplica a esta questão, não se sabendo se terá sido meramente adiada “sine die”, ou se a referida suspensão de abate constitui decisão consumada.

IMG: André Sousa

IMG: André Sousa

Não se compreendem estas decisões de abate, quando é o próprio conselho de gerência da CP que vem a publico justificar, não tomar qualquer decisão neste sentido, sem previamente consultar as estrutura museológica, a Fundação Museu Nacional Ferroviário (FMNF), o que adensa mais a estranheza destas decisões!

Como também é do conhecimento público, as decisões da FMNF em matéria de tomadas de posições sobre o material a preservar, têm-se pautado na maioria mais pela via dos abates, do que propriamente pelo da preservação, a saber, de acordo com exemplos recentes, mencionados no seguimento desta explanação.

Mais recentemente, a mesma divisão de material circulante, com o beneplácito do respetivo conselho de gerência da CP, lança concurso para o abate de 10 lotes de equipamentos ferroviários, retirados da exploração.

Porém, sob uma capa muito generalista, sem identificar devidamente o conteúdo desse mesmo material, especialistas e profundos conhecedores verificaram que esses mesmos lotes incluíam diversos componentes, tais como transformadores, motores, geradores, motores de tração, tudo devidamente reparado e apto a ser utilizado, para além de rodados diversos e umas rodas raiadas, exemplares únicos.

Reparações essas que foram custeadas com dinheiros públicos, para posteriormente serem alienadas a peso e custo de ferro-velho.

Obtido este conhecimento pormenorizado, o conselho de gerência da CP, na pessoa do seu presidente, foi alertado por escrito, de forma pormenorizada, das referidas intenções de abate, para que as mesmas fossem suspensas e reanalisadas com o devido propósito de integrarem o espólio museológico.

Supõe-se que o presidente da CP tenha pedido parecer à estrutura museológica, sobre as intenções de abate do referido material. Desconhecendo-se os trâmites desta troca de comunicação CP/FMNF. É do conhecimento público que as tentativas de evitar o abate dos referidos componentes foram em vão, uma vez que no computo dos 10 lotes, apenas se salvaram os boggies (rodados), tudo o resto foi vendido como sucata.

Cabe referir que os componentes considerados como sucata, eram imprescindíveis para a manutenção de diversos veículos do espólio museológico ou em vias de, sabendo-se que se um dia forem necessários, já não existirão, inviabilizando os putativos funcionamentos. Estamos a falar de unidades triplas elétricas, UTE’S; locomotivas da série 2500; locotratores Moyse; automotoras Allan de via estreita; entre outros.

Em julho de 2018 um incêndio, ocorrido em condições muito estranhas, consumiu um espólio valiosíssimo, indiciado para museu, resguardado na cocheira de Vila Real de Stº António.

Não é de estranhar que tal tenha sucedido, uma vez que o edifício de significativas proporções adequadas à implementação de uma secção museológica, se encontrava votado a um total abandono, permitindo-se o acesso incondicional ao seu interior. Facto que era do conhecimento da CP e FMNF.

No seu interior encontravam-se diversos veículos tais como carruagens, e outros, consumidos na sua quase totalidade. Porém, não deixa de ser estranha a posição que a CP tomou publicamente sobre esta ocorrência, pressupondo-se que a FMNF não estaria alheia a esta questão, uma vez que remeteu para a CP, qualquer parecer sobre este assunto.

Tal tomada de posição refere que os veículos consumidos pelo fogo, não tinham qualquer interesse e eram considerados como sucata.

Posição que revela um tremendo desconhecimento e insensibilidade perante este segmento do património, ao não admitir sequer que por certo os chassis dos veículos de madeira não foram consumidos pelo fogo, por serem em ferro, e serem os mesmos passíveis de  aproveitamento, numa perspetiva posterior de reconstrução dos mesmos.

O edifício foi agora encerrado a “4 chaves”. Como refere o aforismo popular, “depois da casa roubada…”.

Em súmula, algumas das decisões recentes tomadas pela proprietária do material circulante, com consentimento por parte da estrutura museológica, FMNF:

- Unidade Tripla Elétrica, UTE 2001, 1o exemplar da série, a qual foi abatida no Entroncamento em setembro de 2017. Com o parecer favorável da direção da FMNF;

- Locomotivas a vapor Mallet, estacionadas na Régua e outros veículos, com o mesmo parecer favorável;

- Componentes diversos resguardados da divisão de aprovisionamento de material no Entroncamento, onde apenas se salvaram alguns boggies, com o mesmo parecer favorável;

- Salvados do incêndio da cocheira de Vila Real de Stº António, considerados como sucata, independentemente de serem peças únicas.

A. Pinto Pires
Mestre e doutorando em museologia.
ajpintopires@gmail.com
Covilhã, dezembro de 2018