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Acervo Museológico do Museu Nacional e as Precárias Condições de Segurança

O Museu Nacional Ferroviário, MNF, sob as tutelas da Fundação Museu Nacional Ferroviário, FMNF, CP, Comboios de Portugal, IP, Infraestruturas de Portugal e Secretaria de Estado das Infraestruturas, detêm um extenso e valioso espólio de incalculável valor, o qual se encontra disseminado por todo o país.

Muito desse espólio encontra-se literalmente abandonado, à mercê do vandalismo e delapidação, fatores que contribuem para que esta riqueza de “inestimável valor”, se degrade de dia para dia sem que se vislumbre por parte dos responsáveis, alguma estratégia no sentido de se obviar ou mesmo resolver esta questão, a saber.

Secção museológica de Lagos

Com a remodelação do “lay-out” da estação ferroviária, o edifício da secção museológico ficou deslocalizado da mesma estação, e foi encerrado. Não obstante o protocolo existente com a autarquia local, este assunto tem-se arrastado de forma indelével, sem que se vislumbre qualquer iniciativa por parte dos responsáveis.

Como já por diversas vezes se alertou, e a imprensa tem feito eco desta insólita realidade, aquele espaço dito museológico, não tarda que caia sob a alçada do vandalismo e da delapidação; quando a situação se tornar irreversível, e as consequências forem nefastas, a culpa
morrerá solteira.

Vila Real de Sto. António

Em julho de 2018 um incêndio ocorrido em circunstâncias muito estranhas, consumiu um espólio valiosíssimo, indiciado para museu, resguardado na cocheira de Vila Real de So António.

Não é de estranhar que tal tenha sucedido, uma vez que o edifício de significativas proporções adequadas à implementação de uma secção museológica, se encontrava votado a um total abandono, permitindo-se o acesso incondicional ao seu interior.

Facto que era do conhecimento da CP e FMNF. No seu interior encontravam-se diversos veículos tais como carruagens, e outros, alguns peças únicas, consumidos na sua quase totalidade.

Entroncamento

O núcleo principal do MNF. Onde se encontra depositado o maior acervo no denominado “armazém de madeiras”, sem critério de arrumação de veículos, facto que tem originado que alguns deles que para ali foram deslocalizados em bom estado de conservação, já se tenham desintegrado na totalidade, outros a caminho desse estado. Nem sequer houve a preocupação criteriosa de se proceder à sua arrumação!

Diversos veículos, nomeadamente os construídos em madeira ou os metalizados, que não se compadecem com a falta de conservação a que estavam habitualmente sujeitos, se encontrarem cada vez mais, em acentuado estado de degradação e mesmo vandalismo. Vidros partidos, delapidação dos interiores, de forma cada vez mais acentuada.

É certo que o espaço museológico não tem capacidade para albergar todos os veículos, porém, a estrutura museológica não respeitou o “Plano Diretor” elaborado no ano 2000, que previa o resguardo de algum deste espólio, que em alguns casos foi abandonado, para se implementar nos espaços identificados e com projeto elaborado para o efeito, se dar lugar a uma estrutura ao ar livre de modelismo tripulado.

O triste exemplo da demolição da UTE 2001, 1a Unidade Tripla Elétrica construída em Portugal, na Sorefame, revela o que foi a política de preservação da anterior executivo da FMNF, que por coincidência, integrava a atual direção que prosseguiu em funções, como se nada tivesse acontecido.

Também por parte dos responsáveis, CP, FMNF e IP, Infraestruturas de Portugal, e tutela, Secretaria de Estado das Infraestruturas, não se ter vislumbrado qualquer vontade ou preocupação no sentido de se resolver esta questão.

Já por diversas vezes foram apresentadas a todas estas entidades, e de viva voz ao anterior e atual presidente da FMNF, ao secretário de estado da tutela, propostas de solução, exequíveis, que passariam pelo resguardo do material em espaços encerrados sem qualquer utilidade,
outrora oficinas da EMEF, Empresa de Manutenção de Equipamentos Ferroviários, o que equivale estar a falar de uma estrutura empresarial da CP, cujas instalações poderiam resolver na quase totalidade este gravíssimo problema.

RESERVA MUSEOLÓGICA DO MUSEU NACIONAL FERROVIÁRIO

Área Oficinal da Figueira da Foz

Uma área considerável com capacidade para resguardar a quase totalidade dos veículos de via larga estacionados no Entroncamento e terminar de uma vez por todas com a vergonha do abandono das locomotivas de Gaia.

Esta proposta já foi diversas vezes apresentada às estruturas da FMNF, mas sem qualquer resultado prático.

Livração

Nestes espaços oficinais de via estreita, terminal da antiga linha do Tâmega, a prática de arrumação já foi adoptada e os veículos resguardados.

A zona mais crítica prende-se com uma cocheira em madeira, construção única e peculiar, à mercê do vandalismo, intromissão e delapidação. Sem qualquer tipo de vigilância, sujeita a incêndios pela permanência de materiais combustíveis depositados no seu interior.

Os restantes edifícios em alvenaria, encontram-se encerrados, desconhecendo-se qualquer tipo de vigilância levado a cabo sobre os mesmos. No seu interior, estão depositadas peças de elevado valor histórico-museológico.

Régua

Nesta estação estão deslocalizados diversos veículos que ali foram colocados em bom estado de conservação. Porém, e em face do abandono a que foram votados, o seu estado de degradação tem-se acentuado de forma irremediável de dia para dia.

Os diversos conselhos de gerência da CP, já foram para o facto alertados enésimas vezes, mas sem sucesso. E os responsáveis, dispõem nesta área de espaços disponíveis onde a quase totalidade dos veículos poderiam ser resguardados.

A IP procedeu ao levantamento dos carris de via estreita, denominada via algaliada, entre a Régua e estação de Corgo, sem ter em linha de conta esta realidade, única existente na rede ferroviária nacional, inviabilizando desta forma, a utilização de uma estrutura oficinal da EMEF, encerrada, apenas parcialmente utilizada pelo lado da via larga, encontrando-se a parte da via estreita sem qualquer possibilidade de utilização direta face a este constrangimento entretanto criado.

No entanto, com o recurso a uma zorra e colocando-se um “cavalo”, rampa volante de descimento para veículos ferroviários, era possível colocar neste espaço não apenas os veículos da Régua mas também alguns estacionados na estação do Tua.

Tua

Neste entroncamento da Linha do Tua encontram-se estacionados as últimas carruagens “Napolli”, veículos de inegável valor histórico algumas das quais indiciadas como peças de museu, em acentuado estado de degradação e delapidação.

Acresce referir a existência de outros veículos diversos, vagões, furgões e outros, os últimos sobreviventes ali estacionados com o propósito de integrar o espólio museológico nacional.

A solução de resguardo passaria pela sua deslocalização para os espaços cobertos mais próximos como seria a Régua-Corgo, Pocinho e numa situação mais afastada, mas viável, recorrendo ao transporte através de zorras, para Sernada do Vouga.

Pocinho

Nas antigas oficinas de via estreita, encontram-se depositadas diversas carruagens, uma locomotiva a vapor e vagões de via estreita em deficientes condições de conservação e resguardo. O edifício apresenta vulnerabilidades no que se refere à intromissão de estranhos,
que reclamam uma intervenção de forma a obviar este aspeto.

Com os devidos cuidados, seria possível estacionar no seu interior os três veículos de via estreita expostos e abandonados aos elementos, identificados para museu, em acentuado estado de degradação. Sendo estes em madeira, num tempo próximo, apenas restará a estrutura
em ferro que os integra.

Sernada do Vouga

vv_mnf_macinhataComplexo ferroviário de via estreita. É deplorável o estado em que se encontra este espaço, nomeadamente algumas automotoras Allan de via estreita no exterior votadas ao ostracismo e abandono.

Com algum cuidado, os mesmos veículos poderiam ser arrumados no interior deste complexo oficinal o qual já se encontra integrado na FMNF.

Este espaço ainda poderia receber outros veículos de via estreita procedentes de outros espaços sem possibilidade para os abrigar.

Para o devido transporte, teria que se recorrer à utilização das zorras adequadas para o efeito, como anteriormente se referiu.

Estranhamente, e aquando das últimas obras de renovação da via, o acesso direto à secção museológica foi inexplicavelmente cortado com o acordo do anterior presidente da FMNF.

Em síntese

O texto elaborado pretende chamar a atenção para uma das questões que afronta o panorama do MNF/FMNF e reclama uma atuação tão breve quanto possível, por forma a evitar que se repitam situações tal como a que se verificou em Vila Real de So António.

A estratégia adequada tem que passar por um entendimento entre todos os intervenientes neste processo, o qual reclama uma solução prioritária.

Cabe questionar: A direção do Museu Nacional Ferroviário; a FMNF, Fundação Museu Nacional Ferroviário; a CP, Comboios de Portugal, na qualidade de proprietária da maioria dos veículos; a IP, Infraestruturas de Portugal; a tutela, Secretaria de Estado das Infraestruturas, sobre que ideia(s) e estratégias se vislumbram para se ultrapassar esta questão!!

António Pinto Pires
Mestre e doutorando em museologia
Covilhã, Janeiro de 2019
ajpintopires@gmail.com