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Os Comboios e a Ala dos Demorados

Vem este escrito a propósito de uma crónica relembrada por José Saramago, “A ala dos demorados”, permitindo recordar tudo de muito do que se tem passado com os nossos comboios. Em Portugal.

Mais especificamente, sobre uma composição que circulou na linha do Douro, à qual se convencionou chamar “Miradouro”, colocando Portugal na boca dos estrangeiros, porque muitos deles, ingleses, espanhóis, alemães e outros, os quais gostam muito dos nossos comboios. Sobretudo quando no meio desta pobreza de ideias em ousar fazer diferente, surge algo de novo, como foi o caso.

img: Miguel Marques

img: Miguel Marques

O Miradouro recuperou belíssimas carruagens com 70 anos, as Schindler, de fabrico suíço, que o Estado Português comprou àquele país. Veículos com uma capacidade surpreendente de resistência, comodidade e versatilidade. As suas enormes janelas que se podem abrir e desfrutar da paisagem, uma das suas imagens de marca. De tal forma, que veículos similares, ainda circulam no país de origem.

A ideia do Miradouro trouxe gente imensa à descoberta da belíssima região dos vinhedos. De tal forma, que a CP, Comboios de Portugal, teve a habilidade de com esse material fazer comboios de horário, permitindo dessa forma, um dois em um, proporcionando um produto turístico, com comboios regulares.

Mas a mesma CP, que a muito custo, e sempre reclamando prejuízos, lá vai aguentando outros dois produtos sazonais, “O comboio histórico do Douro e do Vouga”, um com tração a vapor e o outro com diesel, decidiu extinguir o Miradouro, alegando o tal prejuízo. Pudera, o mesmo foi tão vulgarizado, não se lhe tendo preservado o recato, que estes “produtos” reclamam, evitando desse modo a sua banalização.

Enquanto isso, a CP e a IP Infraestruturas de Portugal, acabam, de forma indireta, dar cobertura à vulgarização de um outro produto “O Comboio Presidencial / The Presidential”, cuja recuperação custou ao erário público para cima de 1,5 milhões de euros, mas cujos lucros da exploração não revertem para o “dono atual” do comboio, a Fundação Museu Nacional Ferroviária, FMNF!

O comboio que foi dos presidentes, virou produto turístico não se lhe respeitando nem a história nem a memória. Sem tão pouco se saber como se tem ficado de lucros, prejuízos ou custos de manutenção, tendo em conta o desgaste de uma composição emblemática que apenas deveria ser utilizada em circunstâncias muito especiais.

Mas voltando ao Miradouro, agora paira uma incógnita sobre o seu futuro!

No entender do articulista, esta composição deveria ser mantida a recato e potenciar a sua utilização em outras linhas da rede ferroviária nacional de via larga. Pois, tal como o Douro, as Beiras, sobretudo a Beira Baixa no seu trajeto ao longo do rio, o Minho ou o Algarve, poderiam proporcionar viagens inconfundíveis para um turismo que teima em crescer!

Bastaria para tal que se acrescesse um pouco de imaginação na tração destes comboios, se os mesmos fossem traccionados por locomotivas passíveis de circular, mas fora da exploração. As Alco da série 1500, por exemplo! E com serviço de restauração, pois a CP ainda detêm material capaz destas ousadias.

Porquê só o Douro ou o Vouga! Neste segundo caso, favorecimentos pessoais, ou meras coincidências? O atual presidente da CP, é natural desta zona. Será por isso? Ou será mera coincidência o facto de a secção museológica de Macinhata do Vouga ir ser alvo de beneficiações!

A nossa rede ferroviária está povoada de incógnitas no que se refere à preservação de uma memória, que a não ser acautelada, corre o risco eminente de desaparecer. A saber:

Livração – Terminal da Linha do Tâmega. Importante material de via estreita em péssimas condições de conservação e integridade.

Régua – Terminal da Linha do Corgo onde o cenário se repete.

Tua – Terminal da linha com este nome, peças únicas abandonadas aos elementos.

Pocinho – Terminal da Linha do Sabor. Clamoroso o estado em que se encontra a reserva. Telhados a cair, veículos em risco de desintegração.

Castelo Branco – Cocheira histórica de 1891, ao abandono sem qualquer utilidade. Que já foi depósito de peças museológicas, algumas delas retiradas deste local, para estarem ao abandono no Entroncamento.

Sernada do Vouga – Oficinas da Emef disponíveis, material motor à mercê do vandalismo, complexo ferroviário com excelentes potencialidades.

Entroncamento – Sede do Museu Nacional. A Fundação que tutela o museu, conjuntamente com a CP e a IP, não conseguem encontrar uma solução para resguardar e preservar os últimos veículos, sabendo estas entidades que existe esta possibilidade preferindo fazer ouvidos de mercador, permitindo que veículos que ali foram estacionados com o mínimo de condições de preservação, correm o rixo eminente de degradação, como se pode averiguar no terreno.

A CP dispõe de inúmeras instalações da EMEF, Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário, desativadas, encerradas sem qualquer utilidade, que poderiam exercer essa função de reserva. Estamos a falar da Figueira da Foz, Coimbra, Livração, Régua-Corgo, Vila Real de Sº António, ou mesmo Entroncamento. Bastava que para tal houvesse vontade política e alguma visão empresarial.

Os principais responsáveis já mencionados, foram por diversas vezes alertados para esta questão, porém a resposta, tem sido o silêncio!

E a direção do Museu Nacional, não terá uma palavra a dizer? Não se percebe como é que a mesma tem passado ao lado destas questões, sem que para tal seja responsabilizada!

Não será de admirar que aquilo que sucedeu no verão passado em V. R. De Sº António, onde um fogo consumiu a quase totalidade dos veículos ali resguardados, alguns deles peças únicas, a estrutura museológica tenha vindo a público afirmar, com o aval da CP, que esse mesmo material não passava de sucata! Pasme-se! E ninguém foi responsabilizado, saindo incólumes os responsáveis! CP, IP e FMNF!

Assim como no verão de 2017, tanto a CP como a FMNF, não conseguiram evitar a demolição da UTE 2001, a primeira unidade tripla elétrica construída nas oficinas da Sorefame, que sem apelo nem agravo, foi integralmente desmantelada, independentemente dos inúmeros apelos públicos que reclamavam a sua preservação.

Uma peça que veio em impecável estado de conservação e a funcionar, para o espólio do Museu Nacional, e foi votada ao mais completo abandono sem que ninguém saísse responsabilizado.

Agora percebo Saramago quando se auto exilou em Lanzarote, e que talvez a propósito dos nossos decisores, tenha proferido o desabafo: “ Duvidei muito sobre a utilidade real de escrever este artigo.

A lenha ardeu toda, a fogueira esmoreceu, das cinzas frias só terá ficado a costumada tristeza, aquela que sempre nos deixa acabrunhados depois de soar altos febrões de retórica patriótica a que somos atreitos. (…) É sina nossa, sempre chegamos tarde. (…) Temos agora, perdida por aí, algures no tempo, a Ala dos Demorados. Sempre chegamos tarde”.

Acrescentaria, a terminar, se calhar, nunca chegaremos! Ao caso deixamos esvair um pedaço da nossa memória que foi grande. A do caminho de ferro em Portugal.

António Pinto Pires
Professor
Mestre e doutorando em museologia ferroviária.