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Pocinho, O Gigante Adormecido

O Pocinho é um lugar mítico das terras do Douro. A linha com o mesmo nome, que ali chegou em 1887, deu-lhe a visibilidade que o ia caracterizar por um século XX, e se mostrou esplendoroso com a abertura da Linha do Sabor em 1911.

Pocinho_oficinaUma vez aberta o Sabor, o Pocinho passou, nesta linha, a ser uma das portas de entrada para o nordeste transmontano, onde os comboios, incansáveis mas insistentes, teimaram ao longo de décadas, acarretar pessoas e bens até Duas Igrejas, bem às portas de Miranda do Douro, onde o comboio não chegou.

Ponte rodo-ferroviária Não se pode dizer que essa fosse uma linha de extasiante beleza, mas na sua arrancada, sobre a belíssima obra de arte, rodo ferroviária, o comboio vencia a pendente até Mogadouro, uma escalada de enorme beleza, serpenteando a serra até aí chegar.

De qualquer forma, as zonas planálticas, a partir daqui atravessadas, permitiram se tornasse numa das linhas mais fotografadas, por nacionais e estrangeiros, mostrando, ainda hoje, paisagens de indescritível beleza.

O fim da exploração dos minérios de Moncorvo, a debandada das gentes, a não modernização de uma infraestrutura de imprescindível valor estratégico, ditaram-lhe um fim anunciado, quando, em 1988, encerrou de vez à exploração, 50 anos após a sua conclusão na totalidade.

Hoje o Pocinho, com a sua estação, é uma sombra desse passado glorioso, onde quase impera a solidão, os ostracismo e o abandono. Onde parece que tudo o que lhe conferiu grandeza, deixou de fazer sentido.

Houve um vislumbre de animação, quando em 1991, se projetou construir a barragem do Côa, entretanto suspensa, prevendo-se para ali, um grande movimento de materiais para a projetada construção.

Arrancaram-se as linhas de vias estreita. Nas antigas oficinas deste modo de exploração, foram resguardados veículos, supostamente da coleção do Museu Nacional Ferroviário. No casario adjacente, foram depositados materiais da reserva do mesmo museu, mas que o vandalismo se tem encarregue de dar a devida conta por via da delapidação. O Pocinho fica longe de tudo.

Mas o Pocinho encerra um conjunto de infraestruturas de enorme valia na área da arqueologia industrial, a saber:

- A ponte rodo-ferroviária, agora encerrada. – Uma caldeira a vapor, localizada nas imediações do rio, que servia para bombear a água para a estação.

- Todo o complexo oficinal, em lamentável estado de abandono, podendo ser transformado numa reserva visitável do próprio Museu Nacional Ferroviário.

- Uma estação ainda aberta à circulação ferroviária, a qual poderia ser a mesma porta de entrada de pessoas / visitantes neste complexo.

- Uma barragem situada a montante por onde passa todo o movimento fluvial a caminho de Barca d’Alva, uma sinergia que a ser aproveitada, poderia carrear muito turismo para este local e Espanha, já tão próxima.

- A sua proximidade a um trajeto em mutação, e alvo de grande atração, a também linha desativada entre Barca d’Alva e Fregeneda.

- A proximidade ás gravuras do Côa, outro fator de atração local. – Porta de entrada de Trás-os-Montes, junto do IP2.

No Pocinho, não faltam potencialidades, que a ser equacionadas, poderiam conferir a esta zona uma visibilidade traduzida em desenvolvimento.

António Pinto Pires

Mestre e doutorando em Museologia Especialista em temáticas ferroviárias

ajpintopires@gmail.com

O artigo original, com imagens, pode ser acedido AQUI