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França : Train des Pignes “Uma portuguesa na provence” – Parte 01

Hoje em dia, podemos encontrar em França cerca de uma centena e meia de comboios turísticos. As entidades gestoras são, na sua maior parte, filiadas à Unecto que se qualifica como a “federação dos caminhos de ferro turísticos e dos museus de carácter ferroviário em França”.

No entanto, as realidades das diferentes redes são muito variáveis. Algumas são exploradas por associações, outras por sociedades privadas.

E não se pode omitir a importância das câmaras no apoio financeiro e material a essas entidades. Aliás, algumas redes são exploradas diretamente pelos municípios em “régie”. Por fim, se há linhas com exploração regular e turística em simultâneo, outras estão dedicadas à atividade turística.

Nestas duas primeiras partes do artigo vamos explorar o “Train des Pignes” situado na região da “Côte d’Azur”. A proposta passa por conhecer a sua história, exploração, etc.

O serviço turístico desta linha, que veremos na terceira parte, tem a particularidade de usar uma antiga locomotiva portuguesa a vapor.

A Linha Nice-Digne e a sua exploração regular

Os projetos e a construção

Traçado no mapa SNCF da linha Nice-Digne (em laranja). Em cinzento tracejado indentificamos a linha Château-Arnoux-Digne (nº 920), encerrada no final dos anos 80. (Créditos : SNCF Réseau)

Traçado no mapa SNCF da linha Nice-Digne (em laranja). Em cinzento tracejado indentificamos a linha Château-Arnoux-Digne (nº 920), encerrada no final dos anos 80. (Créditos : SNCF Réseau)

Tudo começa na segunda metade do século XIX quando as elites económicas da cidade de Nice mostram interesse numa ligação eficiente até Grenoble. Por consequente, a partir de 1845, começa-se a equacionar uma linha de Caminho de Ferro de 23km paralela ao rio Var para transporte de passageiros. A 17 de Julho de 1879 é promulgada uma lei que classifica 181 novas linhas de “interesse geral” a construir. Estava incluida a linha nº141 “de Nice a Puget-Théniers”. Este troço corresponde aos primeiros 58km da atual linha de Nice a Digne. Onde também estava incluída a linha nº137 “de Digne à Draguignan via ou perto de Castellane”.

O troço Digne-Castellane entra em obras em 1881. Paralelamente em 1883, o troço Digne-Saint-André é concessionado à Companhia PLM (Paris-Lyon-Marseille). Todavia a Companhia PLM recusa a preferência do Estado pela via métrica, mais económica, e renuncia à concessão em 1885. Na procura de uma solução, o Estado concessiona as linhas “de Digne a Draguignan por Castellane e Saint-André” e “de Saint-André a Nice” à Société marseillaise de crédit industriel et comercial et de dépôt (SMCICD) com a lei de 17 de Agosto de 1885. Juntas, essas duas linhas representam a atual linha de Nice a Digne. A SMCICD cria então uma sociedade especifica para a exploração das duas linhas, a Compagnie des chemins de fer du Sud de la France (SF).

As obras começam cinco anos depois da adjudicação, no dia 14 de Agosto de 1891, no primeiro troço, de 13km entre Digne e Mézel. A partir de 1892 entram ao serviço os troços Nice-Colomars (13km), Colomars-Puget-Théniers (45km) e Saint-André-Mézel (31km). Faltavam então construir cerca de 48km entre Puget-Théniers e Saint-André. Entre 1892 e 1907 vários escândalos sobre a sustentabilidade da empresa agravam a situação financeira e o avanço das obras. No entanto entre 1907 e 1911 a Companhia abre progressivamente a extensão em falta. O último troço construído é inaugurado pelo Ministro das Obras Públicas da época no dia 6 de Agosto de 1911. Em 1876 já tinha sido inaugurada a linha de Saint-Auban a Digne pela Companhia PLM que permite ligação à “Ligne des Alpes” e às cidades servidas por esta como Grenoble.

Mudanças recorrentes de modelo de gestão

Automotora Renault comprada nos anos 30 depois da retoma da exploração pelo Estado devido as falhas do concessionário. (Domínio Público)

Automotora Renault comprada nos anos 30 depois da retoma da exploração pelo Estado devido às falhas do concessionário. (Domínio Público)

Poucos anos depois da inauguração vislumbra-se um futuro negro para a linha. Entre 1926 e 1933 o tráfego cai abruptamente. Alcança os dois dígitos para a casa dos 60%. Em 1933, o Estado rasga a concessão e retoma o controlo direto da exploração por “falha do concessionário”. No sentido de relançar o tráfego, são compradas novas automotoras Renault que permitem reduzir o tempo de percurso. Estas últimas entram ao serviço em 1935. Progressivamente o número de passageiros volta a subir, com aumentos anuais médios de 10% entre 1935 e 1939. Com a Segunda Guerra Mundial a linha regista aumentos substanciais. Em 1940 (+63%), 1941 (+43%) e 1942 (+52%). Em 1943 é atingindo o pico com cerca de um milhão de passageiros transportados.

Depois do fim da ocupação e de guerra, em 1952, a linha passa para “régie” direta do Estado. No entanto o tráfego começa a decrescer e as primeiras ameaças de encerramento aparecem em 1959. Para evitar esse cenário, o Estado transfere, em 1967, a gestão a um consórcio (o SYMA) composto por cinco autoridades locais (munícipios, etc). A transferência é efetivada no final do ano de 1972. Nesse momento regista a procura mais fraca de sempre com apenas 148 000 passageiros. Convém notar que o Estado só delega a gestão, continua a ser o proprietário das infraestruturas. O SYMA subconcessiona a exploração a partir do dia 1 de Julho de 1974 à CFTA que hoje em dia faz parte do Grupo Transdev. O tráfego de mercadorias é suspenso em 1977.

Automotora CFD construida em 1977 a aguardar novos serviços na estação de Nice (Domínio Público)

Automotora CFD construída em 1977 a aguardar novos serviços na estação de Nice (Domínio Público)

A linha é mantida em funcionamento e algum investimento é realizado, com a chegada de novas automotoras CFD e Soulé. No entanto, o tráfego de passageiros continua a ter um crescimento muito lento ficando nos anos 70-80 pelos 200 000 passageiros/ano. Nos anos 90, com a saturação dos eixos rodoviários e o crescimento significativo do tráfego turístico (impulsionado em grande parte pelo comboio turístico que evocaremos futuramente), a linha volta a ganhar importância no meio político. Em 1993 é inaugurada a nova estação de Nice tendo a original sido reconvertida em biblioteca. No final de 1999, a CFTA é reconduzida por mais 15 anos pelo SYMA.

A partir de 1 de Janeiro de 2007 o SYMA é substituído pela região PACA na sua função de concedente. Em 2014 com fim da concessão à CFTA, a exploração da linha é retomada em “régie” pela região. O nome “Chemins de Fer de Provence” foi mantido, aludindo ao seu significado histórico. Hoje em dia são transportados em média 400 000 passageiros por ano, números que tinham sido registados pela última vez no final dos anos 40.

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