free web
stats

O Museu Nacional Ferroviário Enredado em si Próprio

Por António Pinto Pires

A Fundação Museu Nacional Ferroviário, FMNF, não tem correspondido aos anseios e exigências do Museu Nacional Ferroviário, MNF.

Este processo museológico tem seguido um percurso muito peculiar, o qual não tem favorecido nem a sua imagem, face às expectativas, que são inúmeras, assim como se tem alheado da resolução das graves questões que exigem decisão determinada, a saber.

Uma dos aspetos que causa muita perplexidade, passa pela decisão tomada pela tutela, ao não proceder à nomeação do presidente da FMNF, não observando o disposto no Decreto Lei 38/2005, cuja nomeação para o cargo é da exclusiva responsabilidade da tutela, Ministro do Equipamento, depois de ouvido o Ministro da Cultura, e socorrer-se de uma solução interna, cargo que passa a ser exercido rotativamente pelos membros fundadores.

Esta nomeação interina, ocorrida em 2018, foi anunciada pelo próprio presidente da CP como medida provisória, por um período de seis meses, que no entanto se mantém.

mnfnave01 (640x480)Esta decisão, afasta-se em tudo dos princípios de uma museologia dinâmica, uma vez que não há uma voz, que atue de forma autónoma, ante as inúmeras questões que se levantam e constantemente se têm adiado.

Não deixa de ser estranho que para se substituir o anterior presidente da FMNF, a tutela tenha levado cerca de um ano e meio, não cumprido os prazos estipulados de acordo com a legislação.

Há muito que se percebe uma paragem na tomada de medidas e decisões, uma vez que após a abertura “quase forçada” do MNF, mais nada se fez, e a FMNF em nada respondeu ao avolumar de problemas com as inevitáveis consequências que se prevêem irremediáveis face à inércia criada.

Enquanto isto a FMNF cresceu em quadros, com pesadíssimo orçamento de funcionamento, e sem resultados visíveis se tivermos em conta a proporção dos mesmos custos de funcionamento comparados com os resultados daí provenientes para o panorama museológico ferroviário nacional, que há muito reclama intervenção, estando as atuações estão reduzidas a zero.

Perante este quadro, não é de estranhar que a FMNF continue a acumular prejuízos, atingindo os 113 mil euros negativos, superando o meio milhão acumulado, conforme se pode observar no último relatório da mesma fundação.

Enunciação de questões indiciadoras da inércia que se percebe neste processo.

* A demolição da unidade tripla elétrica, UTE 2001, a 1ª unidade tripla elétrica construída em Portugal nas oficinas da Sorefame, sinónimo da indiferença e desconhecimento por parte dos dirigentes da FMNF, deliberado pelo conselho de administração da CP que cessou funções em 2017, mas cujo ato de demolição decorreu já sob o período de vigência da atual administração, não obstante os inúmeros protestos surgidos dos mais diversos quadrantes, sem qualquer efeito.

* O estado calamitoso em que se encontra o acervo museológico, abandonado, à mercê dos elementos e da delapidação, seja em Vila Real de Sº António, Lagos, Entroncamento, Pampilhosa, Sernada do Vouga, Gaia, Guifões, Contumil, Livração, Régua, Tua, Pocinho ou Valença! Um atentado, uma vergonha nacional.

* Os escandalosos e duvidosos processos de abate de material circulante e componentes; neste último, o mais recente, e descurando os avisos por parte dos conhecedores que alertaram para que o mesmo fosse suspenso, no sentido de se proceder a uma análise aturada e cuidada, foram enviados para abate transformadores de uma UTE devidamente reparados; geradores das locomotivas Alco da 1ª série; motores das locomotivas 2500, também devidamente reparados; geradores dos locotratores Moyse e motores de tração; motores de tração das automotoras Allan de via estreita; rodados diversos; rodas raiadas de elevado interesse histórico. Componentes vendidos como sucata, imprescindíveis para a salvaguarda dos veículos do MNF.

* Os riscos que corre o acervo depositado nas sítios mais inóspitos, sem o mínimo de condições de segurança, não apenas no que diz respeito à sua conservação, mas sobretudo integridade face à vulnerabilidade do seu estado. Veja-se in Livração, Régua, Tua ou Pocinho. O incêndio ocorrido em V. R. De Sº António, devia ser tomado como exemplo.

* A CP e a Emef são detentoras de algumas áreas oficinais desativadas há vários anos sem qualquer utilidade, as quais poderiam exercer a função de resguardo das reservas museológicas. Refiram-se as oficinas de Coimbra, Pampilhosa, Régua/Corgo, Sernada do Vouga, assumindo principal destaque a zona oficinal da Figueira da Foz, que mercê da sua capacidade poderia albergar um grande número de veículos em acentuado estado de degradação, contribuindo desse modo para a resolução em parte, deste grave problema.

* O estranho caso da utilização do Comboio Presidencial, como produto comercial, peça única de interesse histórico e nacional, cuja reparação ultrapassou o milhão e meio de euros, a troco de uma mera promoção para o MNF, quando se sabe que na temporada de 2018 o périplo comercial, que se repetiu muito recentemente, rendeu para cima de 600 mil euros; enquanto isto, esta composição histórica tem sido alvo de desgastes, sobretudo nos seus interiores, já perceptíveis, sem se saber quem vai arcar com as despesas de reparação dos danos.

* A delapidação da carruagens B600, peças museológicas às quais foram retirados os rodados, para ser incorporados no Comboio Presidencial, estando estes veículos agora estacionados sobre cepos. Em anterior abate, a divisão de material da CP, enviou para abate, rodados do mesmo tipo, dos quais já não se fabricam.

* O abandono da secção museológica de Lagos à mercê de possíveis atos de vandalismo sem que se chegue a entendimento com a autarquia local, no sentido de se solucionar esta questão.

* O esquecimento ostracizado da secção museológica de Valença, onde se encontra estacionada uma composição histórica de incalculável valor, o denominado comboio do século XIX. Parte da sua cobertura começa a ameaçar ruína eminente.

* O alheamento face ao complexo oficinal de Sernada do Vouga, qual espelho do abandono e da falta de dignidade, um espaço outrora nobre e de soberba imagem.

* O estranho caso do incêndio da cocheira de Vila real de Santo António, onde ficaram reduzidas a cinzas três veículos únicos indiciados para “museu”, mas que a direção do MNF veio a público dizer que os mesmos não tinham qualquer interesse, esquecendo que ficaram os chassis passíveis de reaproveitamento, para logo classificar tudo como sucata, havendo no entanto um veículo que se salvou quase incólume, ao caso, indiciado para museu!

* O alheamento da FMNF, face ao levantamento da via algaliada entre a Régua e Corgo, impossibilitando dessa forma a utilização de uma área oficinal que era imprescindível para a salvaguarda do material circulante de via estreita, encontrando-se a apodrecer aos elementos.

* O consentido corte do acesso ferroviário à secção museológica de Macinhata do Vouga sob a responsabilidade do anterior presidente da FMNF.

* A indecisão que paira e subsiste, no que diz respeito à questão da tutela do espólio museológico, cuja maioria se encontra por protocolar, confundindo-se a mesma tutela, se da CP, FMNF ou IP!

* A indiferença demonstrada pela direção do MNF ao não exigir incorporação de veículos retirados de circulação, caso das locomotivas 1550 ou Alco 1500 da 1ª série, no espólio museológico, a título de exemplo, não obstante outros casos.

* O eternizado abandono das locomotivas de Gaia, das carruagens Napolli do Tua, do material da Régua ou Pocinho.

* O estado calamitoso em que se encontra a reserva museológica do Pocinho, com telhados em ruína eminente, ameaçando a integridade das peças aí “resguardadas”.

* O estranho caso do vagão J 5008, peça única que particulares pretendiam depositar no acervo do MNF, mas cujos proprietários se viram na contingência de levar o veículo para Espanha onde está a ser restaurado, pressionados que foram pela ameaça de demolição como sucata por parte das estruturas da CP.

Matérias por si suficientes par inferir que a estrutura museológica nacional não tem um plano de atuação para fazer face à complexidade das questões que se lhe colocam nem se antevê qualquer estratégia de atuação.

Assim como, não se antevê um plano estratégico de futuro, que tenha em linha de conta a expansão do polo central do Entroncamento; qualquer estratégia que vise promover circulações especiais e temáticas; um plano integrado de dinamização das secções museológicas; não se vislumbraram por parte das entidades intervenientes neste processo, FMNF, CP, Refer/IP, Câmara do Entroncamento e outras, quaisquer procedimentos no sentido de captar verbas ou outras mais valias que pudessem minimizar os passivos acumulados e em crescendo nesta mesma FMNF.

Creio estar-se perante uma falsa questão, quando se pugna pura e simplesmente pela garantia de atribuição de verbas que visem manter o funcionamento desta estrutura, sob pena de se eternizar, sem se vislumbrar um futuro que vise dinamizar e promover uma estrutura que deveria ter o nacional como preocupação, resumindo-se a um quotidiano de minudências, a maioria das quais alheadas da essência de um museu ferroviário de âmbito nacional.

Em face do exposto, que não esgota as inúmeras questões que afrontam a “realidade museológica ferroviária portuguesa”, a tutela, na pessoa do Ministro do Equipamento, não pode permanecer indiferente a todo um avolumar de problemas, exigindo-se da mesma uma estratégia de atuação conjugada com os intervenientes neste processo, no sentido de se minimizarem os efeitos nefastos perante os casos apontados.

António Pinto Pires
Ex dirigente do Museu Nacional Ferroviário
Mestre e doutorando em museologia.
Covilhã, junho de 2019.

Documento submetido à consideração do Ministro do Equipamento