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Regresso ao Futuro

Por: António Alves
Maquinista

Vivemos na Ferrovia Nacional um momento que se pode considerar histórico. Aquilo que na filosofia da ciência se chama uma rutura epistemológica. Estas acontecem quando um obstáculo inconsciente ao pensamento científico é completamente rompido ou quebrado. É o que acontece nos dias que correm no mundo ferroviário português. Um conjunto de fatores concatenaram-se para que isso fosse possível: um ministro dedicado e consciente do papel da Ferrovia no futuro do país, um Conselho de Administração da CP tecnicamente competente e empenhado em fazer renascer o Caminho de Ferro e, até, uma mudança de linha, mas sem rejeitar a sua História e mantendo uma continuidade com ela coerente, no mais importante sindicato operacional do setor, o dos Maquinistas.

clientesTemos condições, assim o queira o poder político, para assistirmos ao renascimento da Ferrovia Portuguesa. A reintegração da EMEF na casa mãe, em simultâneo com a reabertura das magníficas oficinas de Guifões em Matosinhos, são duas soberbas notícias. Estas instalações, situadas num triângulo estratégico entre o mais exportador Porto de Mar português – Leixões – um Aeroporto de gabarito internacional – Sá Carneiro –, diretamente ligadas à Rede Ferroviária Nacional e a dois passos de valências tão importantes como a Faculdade de Engenharia do Porto, a EFACEC e o Centro de Excelência para a Investigação da Indústria Automóvel (CEIIA), têm todo o potencial para se tornarem num grande polo de desenvolvimento tecnológico no nosso país. Poderemos lá reconstruir a nossa perdida indústria ferroviária e criar um núcleo de investigação e desenvolvimento neste setor. Não vem o atual presidente da CP da Nomad Tech, uma empresa de ponta na investigação e pioneira global no desenvolvimento e aplicação das mais modernas estratégias de manutenção de material circulante, bem como de soluções ecológicas que fornecem recursos significativos de poupança de custos para o mercado ferroviário? Este projeto reúne, inclusivamente, condições para atrair um gigante da indústria mundial no campo do material circulante ferroviário.

Perante isto, e perante as notícias da recuperação de material circulante encostado que voltará a servir as nossas populações, aumentando a oferta de comboios disponível nos muito carecidos serviços urbanos, particularmente os de Lisboa, e regionais, a que se junta a muito boa notícia de finalmente ter sido assinado um contrato de serviço público entre o Estado e a CP-Comboios de Portugal que, espera-se, trará estabilidade financeira à empresa e a especificação clara de quais os serviços que deverá prestar às populações, não deveríamos estar todos felizes ou, no mínimo, esperançosos?

Devíamos! Mas as mesmas “elites” de sempre, as mesmas forças que amarraram a CP ao passado, que ainda hoje a retêm estruturalmente no século XIX, apesar de estarmos no fim da segunda década do século XXI, começam a sentir-se incomodadas por perceberem que o chão poderá fugir-lhes debaixo dos pés. Apareceu alguém determinado a drenar o pântano sulfuroso em que se habituaram a viver e que dominam como ninguém. Até o facto do atual quadro de administradores da CP não ser do milieu, do milieu das trocas de favores entre “gestores” e “sindicalistas” do centrão dos maus interesses, sempre devidamente munidos do cartão de militante do bipartidarismo egoísta, os incomoda. Os chocalhos das cascavéis agitam-se e são já audíveis. Não perderão uma única oportunidade para maldizer, colocar pedras no caminho, usar de todo o manancial de perfídia acumulada em décadas de hipocrisia.

Os ferroviários – os verdadeiros, os que produzem comboios -, sejam eles dos setores circulantes ou fixos, só podem estar felizes com o regresso da EMEF à casa mãe. Além da recuperação da perdida cultura ferroviária comum, talvez estes trabalhadores possam ver agora, paulatinamente, as suas condições melhoradas e não tenham a necessidade de novamente fazer greve durante um ano para conseguirem aumentos salariais decentes. Talvez, dentro de um futuro que se deseja breve, seja possível abrir concursos para contratar operários e técnicos para a manutenção de material ferroviário e os candidatos superarem largamente a oferta por estas carreiras serem devidamente remuneradas e profissionalmente atrativas. Coisa que não aconteceu nos 27 anos em que estiveram forçadamente separados tendo a EMEF atingido níveis de enorme desmotivação. Por muito que venham agora os seus pretensos defensores, foi isso que aconteceu e é notória a alegria destes trabalhadores com o seu regresso ao local de onde nunca deviam ter saído.

O anterior presidente do Conselho de Administração da CP, Dr. Carlos Nogueira, prestou talvez, na hora da saída, o seu melhor serviço à empresa definindo-a, em entrevista que concedeu ao Expresso, com uma frase lapidar: “A CP não é uma empresa, é uma organização indefinida”.

É tempo de a transformar numa verdadeira empresa. Uma Empresa Pública preocupada com e ao serviço dos utentes do Caminho de Ferro, uma empresa empenhada em criar as melhores condições de trabalho e remuneratórias para quem lá, todos os dias, se empenha, seja qual for a sua função, para que o indispensável serviço público que presta à comunidade seja levado a efeito nas melhores condições possíveis. Uma empresa que potencie nos seus trabalhadores o orgulho em servir o País. Que potencie o orgulho em ser Ferroviário. Para isso basta fazer aquilo que há décadas não é feito. Fazer o básico: produzir comboios que aparecem, aparecem à hora marcada e com boas condições de uso. Para isso devemos fazer ouvidos moucos às carpideiras negras do passado.

É tempo de regressarmos ao Futuro.