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Seis questões a Francisco Furtado

A_ferrovia_em_Portugal_01No seguimento da apresentação “A ferrovia em Portugal: passado, presente e futuro” que teve lugar no passado dia 22 de Janeiro na Sala do Rei, estação do Rossio, a werbails.tv colocou algumas questões ao autor.

Junto de Francisco Furtado procurou saber, além de justificar e posicionar a obra na conjuntura, partilhar do olhar sobre se a aposta do Executivo no sector é um plano de longo prazo, os argumentos do PNI 2030, e se Portugal pode ser apelativo para a entrada de operadores privados de passageiros.

webrails.tv – Com planos para a Infraestrutura, o Plano Ferrovia 2020, e para a exploração, Plano CP, a correrem no terreno, pode dizer-se que Portugal tem uma visão estratégica para a afirmação com personalidade do sector ferroviário nas próximas décadas?

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Sobre “A ferrovia em Portugal: passado, presente e futuro”

webrails.tv – Porquê escrever e publicar “A ferrovia em Portugal: passado, presente e futuro”?

Francisco Furtado – “O objetivo deste livro é contribuir para a revitalização da ferrovia em Portugal.” Esta é a frase que abre o livro.

Potenciar o crescimento dos portos e outros grandes polos logísticos e industriais estratégicos para o desenvolvimento do país requer uma aposta firme na ferrovia de mercadorias, capaz de alavancar a competitividade da economia nacional e a sua capacidade exportadora.

Melhorar a mobilidade, diminuir o congestionamento e possibilitar um desenvolvimento sustentado nas grandes áreas metropolitanas do país não pode ser feito sem o caminho de ferro.

As ligações entre as nossas principais cidades são as operações de passageiros mais rentáveis da rede portuguesa, apresentando elevados níveis de procura, que poderá continuar a crescer com ligações mais rápidas, frequentes e preços ajustados à nossa realidade sócio-económica.

A ferrovia possui níveis de capacidade, velocidade, regularidade, segurança e conforto superiores a qualquer outro modo de transporte de superfície, possibilitando custos no transporte de carga significativamente inferiores à rodovia. É o único modo de transporte já hoje em dia largamente electrificado, reduzindo a dependência do país em combustíveis fósseis importados e oferecendo mobilidade sem emissões poluentes.

No entanto, estas vantagens não se aplicam a todas as situações, dependendo muito dos volumes de procura servidos, características da infraestrutura, material circulante, modelos operacionais e enquadramento institucional. Entretanto, Portugal e a ferrovia vivem sob o dilema da necessidade de investimento e modernização, por um lado, e da dívida por vezes insustentável que leva à paralisia, por outro.

A questão fundamental a discutir é que papel para a ferrovia em Portugal no século XXI? Que caminhos tomar para simultaneamente revitalizar o sector, garantir a sua sustentabilidade económica e maximizar o seu contributo para o desenvolvimento do País e bem-estar da população?

Durante mais de uma década estudei de forma aturada, no meu mestrado, doutoramento e agora nas funções que desempenho a questão ferroviária nas suas múltiplas valências. Ter agora oportunidade de fazer chegar ao grande público todas estas reflexões e mais que isso, poder escrever um livro que informe o grande público e permita uma discussão mais fundamentada dos rumos do sector é algo que me motiva bastante. Isto porque opiniões diferentes podem existir sempre, mas ao menos que sejam fundamentadas em algum conhecimento, mesmo que elementar, deste sistema.

É também uma forma de contribuir para o desenvolvimento do próprio país e não apenas da ferrovia, pelo menos espero eu.

webrails.tv – Que aspectos chama atenção na obra?

Francisco Furtado – O livro chama atenção para factos pouco conhecidos da opinião pública, como a actual situação das mercadorias (francamente melhor do que em muitos dos nossos vizinhos mais próximos na Europa), ou o facto de apesar de todas as dificuldades, 2019 ser o ano com mais passageiros da ferrovia em Portugal do século XXI. Ou seja, se mesmo com todos os problemas a ferrovia dá sinais positivos, imaginemos o que não seria possível com um conjunto de intervenções equilibradas e bem pensadas.

No primeiro capítulo intitulado “Porquê discutir a ferrovia” são partilhados alguns dados chave e as principais razões que levam a ferrovia a ser um tópico de discussão relevante para o País.

O caminho de ferro é uma indústria com mais de século e meio em Portugal. No segundo capítulo “Um pouco de história” é debatido o seu vasto passado do qual podem ser tiradas várias lições para o futuro. O foco é nacional, mas tendências globais e experiências além-fronteiras não podem deixar de ser mencionadas quando relevantes. É depois analisado “O sistema ferroviário” propriamente dito, os vários elementos que o compõe e suas interacções, a evolução da procura nas últimas décadas e desafios actuais.

O culminar é atingido com o “Esboço de visão para a ferrovia em Portugal no século XXI”, que abrange princípios gerais a ter em conta, directrizes para as mercadorias e passageiros, terminando com algumas notas acerca da governação do setor. Abaixo deixo algumas destas directrizes.

Os elementos centrais para dar continuidade à retoma da ferrovia de mercadorias em Portugal podem resumir-se em três palavras: Portos, produtividade e Espanha. Baixo custo e capacidade são as grandes forças do caminho de ferro na movimentação de carga: a competitividade do setor e os benefícios que daí advêm para o tecido económico do país passam pelo aumento de produtividade que efetive essas vantagens.

Embora distantes do centro industrial da Europa, Portugal e a Península são um ponto de cruzamento para rotas marítimas oriundas dos quatro quadrantes, com uma localização única no contexto europeu, se não mundial. O volume de procura necessário para assegurar a rentabilidade do setor está na sua complementaridade com os portos.

Para lá dos Pirenéus, a zona de influência dos portos ibéricos e o potencial da ferrovia de mercadorias é limitada, sendo a bitola apenas um entre vários outros entraves técnicos, regulamentares, geográficos, logísticos e políticos à circulação ferroviária.

A criação de um eixo ferroviário de qualidade ao longo da fachada atlântica da Península, da Corunha até Faro, é a chave para garantir a sustentabilidade do setor de passageiros em Portugal. A ligação Lisboa-Porto é elemento fulcral desse eixo Atlântico e a Linha do Norte é a espinha dorsal da rede ferroviária portuguesa. A questão não é se deve investir-se nesta ligação, mas que tipo de investimento fazer.

Fundamentais são também os serviços urbanos e suburbanos nas grandes áreas metropolitanas. Tendo o desenvolvimento da ferrovia de estar associado ao planeamento do território e usos do solo. As estações ferroviárias e o seu papel no tecido urbano são elemento central para o sucesso da operação ferroviária. A ferrovia pode contribuir para a dinamização da atividade económica em regiões do interior e reforçar a coesão territorial, mas por si só não é capaz de ultrapassar outros estrangulamentos de natureza institucional ou geográfica.

É necessária uma visão estratégica de conjunto para a ferrovia. A ferrovia é um sistema composto por vários elementos: infraestrutura, material circulante e operações. Investimentos em material circulante e infraestrutura, mais do que se substituírem um ao outro, são altamente complementares. A aquisição de material não pode ser feita sem ter em conta o estado da infraestrutura existente e a sua previsível evolução. O tipo de operações e serviços oferecidos está sujeito ao equipamento e às características da infraestrutura existente. Mas a infraestrutura e os potenciais investimentos a realizar dependem também do modelo de serviços que se pretende prestar.

O caminho de ferro requer estabilidade nos mecanismos de financiamento e na prossecução de objectivos ao longo de horizontes temporais alargados que necessariamente atravessam várias legislaturas. A ferrovia requer a manutenção contínua dos seus ativos – infraestrutura, equipamento, pessoal e suas competências – e precisa de se atualizar para responder a novos desafios e para garantir a sua sustentabilidade. O retorno de investimentos requer um período longo, medido em décadas, realçando a importância do planeamento a médio e longo prazo, que deve ter em linha de conta a realidade socioeconómica e geográfica do país, sem esquecer a complementaridade com outros modos de transporte.

A ferrovia já dá fortes sinais de vitalidade na movimentação de mercadorias e continua a ter um papel estruturante no transporte de passageiros. Não estamos perante uma actividade irremediavelmente afundada em crise. Se, com os vários problemas existentes, a ferrovia em Portugal tem conseguido nos últimos anos atrair maior procura e reforçar a sua sustentabilidade financeira, imagine-se o que não será possível atingir com um conjunto de intervenções equilibradas, que tenham em linha de conta a realidade e as possibilidades do país, mas sejam capazes de melhorar a eficiência e níveis de serviço das operações.

webrails.tv – Que contributo espera dar ao modo de transporte com a publicação de “A ferrovia em Portugal: passado, presente e futuro”?

Francisco Furtado – Acho que acabei já por responder em parte a esta pergunta, acrescento que para além de contribuir para uma discussão mais informada entre o grande público e decisores políticos, espero que o livro também ajude a separar algum trigo do joio. Ou seja, identificar o que são prioridades absolutas, aquilo que são mitos e caminhos que não devem ser seguidos, e por fim aquilo que são iniciativas onde não é possível ter grandes certezas. Se de alguma forma ajudar a que sejam prosseguidos os esforços positivos desenvolvidos nalgumas áreas e ajudar que se evitem alguns erros do passado ficaria muito contente.