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Sorria: está a ser enganado!

Recuando ao turbulento período de 2009, em que o nosso país resvalou para a bancarrota a reboque da crise do Sub Prime e do desmando da governação de maioria absoluta de Sócrates, assistimos a uma leva de encerramentos de troços ferroviários, como não se via desde – coincidência – as maiorias absolutas de Cavaco Silva em finais da década de 1980. Nesse lote, um dos infelizes contemplados foi o Ramal da Figueira da Foz, via Cantanhede.

Esta via de 50 km liga directamente duas cidades e uma vila, atravessando quatro concelhos com uma população total de 145 mil habitantes. Os serviços de passageiros incluíam como origem/destino Coimbra, via Linha do Norte na Pampilhosa, onde através de transbordo se chegava também à sede de concelho da Mealhada. Como dita a cartilha dos tempos de Cavaco e Ferreira do Amaral, seguiram-se os fraudulentos passos à letra:

1 – Alegar encerramento por questões de segurança;

2 – Levantar toda a super estrutura da via;

3 – Terminar rapidamente com o serviço de substituição por autocarros;

4 – Lamentamos mas não temos dinheiro para a reabertura. Limpinho, limpinho.

2021 é o Ano Europeu do Transporte Ferroviário, e, nem de propósito, Portugal está a atravessar desde o ano passado um período histórico notável de recuperação da nossa Ferrovia.

A Linha da Beira Baixa está prestes a ser reaberta entre a Covilhã e a Guarda, as Oficinas de Guifões reabriram, as Linhas do Algarve e do Oeste estão a ser electrificadas, está a ser recuperado um número incrível de carruagens e locomotivas deitadas ao desbarato.

Ramal_da_Figueira_da_FozE é por isso que recebi estarrecido a nota da Infraestruturas de Portugal que dá conta da transformação do Ramal da Figueira da Foz em mais uma ecopista, na qual se lê, qual punch line, que este projeto terá grande impacto na promoção da mobilidade sustentável nas várias localidades daqueles concelhos …

A ligeireza e atitude de desresponsabilização do Estado com que há mais de 20 anos se vem a promover ecopistas em troços ferroviários desactivados, como solução única, e sem um único estudo de reabertura ou inquérito à população, é atroz e desconcertante.

Arrenda-se às autarquias um canal que não se soube preservar, faz-se copy/paste à referência que as estações serão recuperadas para apoio à ecopista e depois ficam devolutas, e, a coberto de pretextos de promoção da actividade física / modernismo urbanístico, eis mais alcatrão à revelia do carril.

Reabrir o Ramal da Figueira da Foz, assumindo um custo de 500 mil euros por km, importaria em 25 milhões de euros; via financiamento comunitário, caberia ao Estado pagar uns inexpressivos 3,75 milhões de euros – ou pouco mais de 900 mil euros repartidos pelas quatro autarquias.

A ecopista essa, orça em 4 milhões de euros; ou seja, a cada 6 km de ecopista, dá para reabrir 1 km de ferrovia. Enquanto isso, promove-se uma malha de ecopistas a perder de vista, convidando sub-repticiamente as crianças a fazerem granfondos de bicicleta para irem para a escola, os idosos a irem de trotineta ou patins até ao centro de saúde, e os trabalhadores a fazerem uma maratona por dia para irem trabalhar.

Porque há que promover mobilidade suave e descarbonizada, certo? …

Mobilidade sustentável, segura e barata, tem nome: FERROVIA. Gostaria de ouvir a opinião dos munícipes da área deste Ramal sobre se preferem ter uma infra-estrutura para caminhadas, ou transporte público de passageiros e mercadorias mais barato, de e para a Figueira da Foz e Coimbra. Os resultados seriam verdadeiramente surpreendentes, não duvido.

Daniel Conde
Vila Real, 5 de Fevereiro de 2021

Não escrevo segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico.