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Scratch Building – Do nada ao extremo detalhe – Falls da CP

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Capa2De um momento para o outro o panorama ferromodelistico nacional passou de uma inexistência profunda de material motor ou rolante representativo da realidade ferroviária portuguesa, onde a velhinha Lima proporcionava o que de mais parecido se poderia encontrar, para uma cuidada variedade de material de altíssima qualidade e detalhe que bate aos pontos as mais afamadas marcas de produção estrangeira.

Embora hajam inúmeros aficionados do ferromodelismo em Portugal, o seu número não permite ainda fazer escoar grandes quantidades de produção como acontece em outros Países, bem como aliada à conjuntura económica em que nos encontramos as produções nacionais de novidades são reduzidas a quantidades muito pequenas, o que faz com que o custo da produção seja elevado, logo também o seu preço final ao público.

Independentemente de conjunturas, preços e quantidades, podemos afirmar que muito já se fez em pouquíssimo tempo, veja-se o caso da Sudexpress e Norbrass, mas mesmo assim um longo caminho há a percorrer de modo a que o ferromodelista Português tenha ao seu dispor um vasto leque de material para coleccionar.
Como “quem não tem cão, caça com gato”, o Scratch Building é a solução para alguns dos modelistas da nossa praça, colmatando assim essas falhas, com a produção artesanal de algumas dessas peças, onde do nada se pode chegar ao extremo detalhe e fabricação de uma peça única.

O que é o Scratch Building

 

Fotos 01Scratch Building é o nome que se dá ao processo de construir algo a partir do zero, ou na gíria modelística “construir à unha”.
Quando não há determinada peça de produção industrial, ou kit comercial para que a possa produzir, a grande maioria dos modelistas respira fundo e aceita o facto de não poder ter essa peça na sua colecção.
Contudo as coisas não necessitam ser bem assim, pois a partir de uma base de um modelo que se assemelhe ao que se quer reproduzir ou mesmo a partir do zero, tudo é passível de ser produzido.

Scratch Building é sem duvida muito mais difícil que a construção de um kit, envolvendo um gasto muito maior de tempo em planeamento e construção de todas as peças necessárias à produção daquilo a que se proponha, mas certamente que a satisfação tirada pelo modelista em criar algo a partir do nada com suas próprias mãos é sem duvida muito mais gratificante.

Existem dois métodos básicos de scratch: scratch Building tradicional (construção do nada) e kitbashing (com base em kit ou outra peça pré feita), podendo os dois ser misturados, embora cada método tenha suas próprias categorias e variações.

 

Kitbashing – Produção de um vagão de transporte de inertes – Falls da CP

 

Fotos 02Para que possamos fazer uma introdução a este tipo de modelismo, Luís Gaspar, conhecido modelista com inúmeros trabalhos produzidos neste campo, explicou-nos como produziu um Falls da CP para transporte de inertes a partir de um modelo base.

De início há que escolher a peça base mais conveniente em que se irá trabalhar. Neste caso o modelo escolhido foi um vagão da Electrotren ref. 5751, à qual foram acrescentados alguns pormenores a nível de tubagens para comando e manobra, bem como cortadas partes do vagão, incidindo principalmente na altura do mesmo, até ter as dimensões ideais para começar verdadeiramente o trabalho.
Os materiais de eleição utilizados por Luís Gaspar nesta transformação foram os perfis e placas de Evergreen, além de peças de pormenor aproveitados de sobras de trabalhos anteriores, tais como bocas de despejo, tubagens, mangueiras, etc.
Fundamentalmente foram acrescidos novos painéis laterais na balsa, tirantes de reforço, tubagens, uma nova escada num dos topos, guarda corpos nos extremos, telhados para protecção da maquinaria de comando e decalques.

Fotos 03As técnicas de pintura pertencem à “Velha Guarda” refere Luis Gaspar utilizando um simples pincel e um palito para retoques mais cirúrgicos. A tinta utilizada foi a Humbrol RAL 5023, finalizado com decalques e verniz para proteger e selar o trabalho.
Quanto ao tempo de produção deste trabalho demorou cerca de 3 semanas, executado a bom ritmo de modo a poder participar na expo do Barreiro de corrida em Maio último.

A maior dificuldade que se pode encontrar para a produção deste tipo de trabalhos, reside na falta de fotos para modelismo. “O pessoal, e muito bem, tira fotos mais artísticas para depois poder apreciar o comboio deste ou daquele angulo. No modelismo, o importante são os detalhes, quanto mais “Macro” for a foto melhor, quanto mais detalhada e pormenorizada melhor ferramenta de trabalho se torna” refere.
No que concerne a custos, não se contabilizando os tempos de mão-de-obra, e o vagão base para esta peça não ficou por mais de 25€. Assim sendo o preço é um desafio para futuros modelistas que acham o material CP muito caro.

Iniciar no Scratch Building e agora?!

Fotos 04Luis Gaspar afirma que “o fundamental para se iniciar na arte do Scratch Building é ter vontade de o fazer. Deverá começar com um vagão barato, em segunda mão, e basear-se em fotos reais, estudar bem a peça e o projecto que se quer iniciar. E a partir desse momento cortar, colar, experimentar os materiais disponíveis, e aplicar ou desenvolver as suas técnicas, finalizando com pintura a gosto”.
Após o trabalho concluído, deve-se auto-avaliar o resultado final, pedir opiniões a outros modelistas mais experientes e perceber o que correu bem para reter isso, bem como o que correu mal para tentar não cometer o mesmo erro no próximo trabalho, mas importantíssimo é nunca desanimar. “A rapaziada julga que todos os modelistas nasceram a saber usar um x-acto e a pintar, mas, por exemplo no meu caso, já são mais de 10 anos a cortar e colar, e fico feliz porque vou notando uma evolução, a ideia é essa, evoluir e não querer fazer tudo perfeito no primeiro trabalho. Trabalho após trabalho, vamos reciclando técnicas que usámos nos trabalhos anteriores e vamos descobrindo outras, acreditem que vale a pena!

CapaQuanto ao resultado final é o que se vê quer nos seus posts de facebook quer nas exposições onde participa, pois não faz questão de esconder nada, e tudo o que sabe explica e partilha, sendo esta a sua filosofia e modo de estar no modelismo, obtendo assim feedbacks muito positivos de outros modelistas e coleccionadores sempre com críticas positivas, no intuito de melhorar de projecto em projecto, confessando que o maior gozo que lhe dá é poder ter peças únicas.

Em suma, podemos dizer que por ser um processo demorado e muito mais complexo do que a construção de um kit, este tipo de construção produz um resultado final único, enriquecendo a colecção de qualquer modelista.

Fotos e produção do Falls: Luis Gaspar
Autoria: José Serrano                                          Apoio de produção: www.allscalestrains.com

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