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Serviço de Inventário Museológico do MNF em apontamento de mini entrevista

museuNF-01O Museu Nacional Ferroviário (MNF) tem em curso a tarefa de inventariação do seu espólio ferroviário. Ao seu cuidado reúne um vasto acervo que não se esgota em objectos, mas também num considerável património imaterial.
A coordenadora do Serviço de Inventário do Museu Nacional Ferroviário, Mara Covas, acedeu responder a algumas questões colocadas pela webrails.tv para introduzir o trabalho de inventário do MNF que está a ser desenvolvido.

Webrails.tv – Qual a importância do inventário no Museu?
Mara Covas – Este deve ser o processo base de trabalho e organização do património, a partir do qual se torna possível uma correcta gestão dos bens, permite um controlo efectivo sobre as peças, diagnosticar e corrigir situações de risco e até abrir caminho para o estudo científico do acervo. Desencadeia prioridades de intervenção, acções de divulgação e estudo aprofundado. Conciliou-se a preparação da exposição permanente do Museu com a realização do projecto de inventariação, iniciou-se o inventário, que terá continuidade com a abertura do Museu.

museuWebrails.tv – Em que consiste o acervo que tem vindo a ser trabalhado em inventário?
Mara Covas – O acervo é muito vasto e abrange variadas tipologias, que vão desde componentes de locomotivas, objectos do quotidiano ferroviário, instrumentos e equipamentos de via e obras, material associado ao serviço médico e de restauração, material circulante (vapor, diesel e eléctrica), e património imóvel.
As peças são variadas, o seu nível de qualidade histórica, técnica, artística, cultural e profissional justificam a sua selecção, a presença de outras, aparentemente menos relevante, justifica-se com a importância da sensibilização para a preservação do património. Renegar esta realidade, desvalorizando “artes menores ou recentes” poderá gerar o efeito contrário àquele que se pretende implementar: o da preservação.

Webrails.tv – Como esse acervo chegou ao Museu?
Mara Covas  – Grande parte do acervo foi transferência da CP, outra parte mais reduzida cedida pela Refer e ainda doações por parte de particulares.

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Triciclos Foto: FMNF

webrails.tv – Por alto, é possível ter uma ideia de quantas peças estamos a falar?
Mara Covas – O acervo museológico do Museu Nacional Ferroviário MNF é vastíssimo, ascendendo a mais de 30 000 peças. Não se encontrando ainda completamente inventariado, mas em fase de inventariação. Além de vasto, o acervo referido é, ainda, muito diversificado e disperso, tanto no Entroncamento como nos vários núcleos de Norte a Sul por todo o país.
Não existe ainda um número que seja indicativo da totalidade da colecção afecta. Só quando o processo de inventariação estiver concluído, é que poderemos ter a noção exacta da totalidade do acervo.
Mas, para ter uma ideia, por parte da CP, a nível de acervo miúdo incorporado estão registados em elenco cerca de 18.400 peças.

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Placa de numeração de locomotiva (FMNF/ENT/000887). Foto: Mara Covas/FMNF

Webrails.tv – O que está feito e falta fazer?
Mara Covas – Conheciam-se, elencos de peças, listagens simplificadas e desactualizadas, onde os bens estavam registados ou apenas referenciados, com alguns dados errados. Estes sistemas de registo excluem algumas categorias de bens, e tais limitações não permitem a sua comparação ao que é hoje um processo de inventariação: uma acção sistemática, de carácter cientifico, 2/3 englobando a totalidade de cada colecção e abordando cada peça em diferentes níveis, de modo a permitir o seu conhecimento, endencialmente exaustivo.
O processo de inventariação está a desenvolver-se no preenchimento de fichas individuais, em software de base de dados desenvolvido para o efeito.
Neste momento, a prioridade são as peças que vão integrar a exposição permanente do Museu, estas peças, cerca de 500, estão a ter um tratamento mais profundo, de forma a se retirar delas toda a informação possível e passível de ser trabalhada.

Webrails.tv – É possível dar uma ideia do processo “minucioso” que cada peça é alvo antes de constar no inventário?
Mara Covas – Para o trabalho progredir de forma coerente e de acordo com as normas utilizadas actualmente, foi necessário estabelecer critérios e normalização de procedimentos e terminologia, adaptadas à realidade ferroviária.
Conscientes da dificuldade em avançar para um projecto exaustivo, pelo menos numa 1ª fase, optou-se por balizar os descritores indispensáveis a cada peça. Definiu-se que o registo deverá contemplar os seguintes níveis de descrição e identificação: designação/título; dimensões; descrição (tão completa quanto possível); diagnóstico e avaliação do estado de conservação; localização; função; registo fotográfico geral e de pormenor.

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Farol de iluminação de Locomotiva (FMNF/ENT/000787). Foto: José Moreira/FMNF

Para um registo completo de cada objecto e ao mesmo tempo permitir um acesso rápido a cada ficha, obrigou à aquisição do software específico de inventário. No Inpatrimonium, são introduzidos os dados, o que permite reunir quer a informação textual assim como associar ficheiros multimédia, fotografias, etc. E assim, desenvolver um método, normalizado e informatizado que permite actualizações constantes e acréscimos de informação. Será necessário aferir peça a peça, retirar dela toda a informação que ela nos transmite, e depois seguir para a fase de pesquisa. Perceber a peça em si, integrá-la num contexto, numa função. Colocar questões à peça!

Pesquisa esta que pode ser, através de transmissão oral, de antigos e actuais ferroviários, que com as suas experiencias de vida profissional nos dão valiosas informações sobre função da peça, alterações e adaptações que muitas foram sujeitas. E também, através de Boletins, e outros periódicos que nos dão preciosas informações, através das noticias de época que nos transmitem informações interessantes.
Cada peça é fotografada, a fotografia, quer seja de pormenor ou geral, é um importante documento de registo.

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Lanterna Foto: FMNF

Webrails.tv – Do que já foi feito, o Museu pode revelar algumas peças singulares já tratadas?
Mara Covas- A Caldeira vertical, Liliputienne, Minitura da Pacific, o Painel das Profissões, vamos devolver o vapor à rotunda, com variadas locomotivas a vapor, o Comboio Real.

Webrails.tv – Para terminar, qual pode ser o interesse e utilização do acervo já trabalhado  sob tutela do Museu ?
Mara Covas – O trabalho de inventário é um processo contínuo, de recolha, pesquisa, investigação, daí nunca se poder dar como encerrado. É antes, um querer saber mais, ir mais a fundo na informação a recolher.
Em virtude do ritmo de inventariação e dos meios de disponibilizados, outros dados serãocontemplados numa fase posterior, uma vez que exigem investigação demorada. Além disso, 3/3 um dos objectivos é permitir que outros investigadores possam contribuir para complementar a história das peças.
Pequena parte do acervo vai estar exposta. Mas conhecendo o que existe, a utilização e haverá todo o interesse em de uma forma dinâmica, se dê a conhecer todo o acervo, por meio deexposições temporárias, empréstimos e cedências de peças para exposições, projectos de investigação.
Só ao conhecer é possível dar a conhecer.

Saber o que existe, onde se encontra e qual o seu contexto,  é o objectivo. Com certeza,  que no presente e no futuro, este trabalho é o caminho para abrir e valorizar a investigação, bem como estimular a curiosidade.

Texto e questões – Rui Ribeiro