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DESMISTIFICANDO AS CAUSAS DO ENCERRAMENTO do troço Mirandela – Bragança

horarioTuaParte I – Os Horários serviam as populações?

A imagem representa uma digitalização do livro de horários da CP de 1991, ilustrando os últimos horários da Linha do Tua no qual os comboios iam de Mirandela a Bragança. A principal fonte de procura de um transporte público regional são os estudantes e os trabalhadores, nas suas deslocações casa – trabalho/escola – casa. Atente-se na seguinte análise, na qual iremos focar-nos nos horários de chegada e de partida dos três principais núcleos geradores de movimento na Linha do Tua – Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança – nos horários de maior procura habitual: entradas e saídas de e para o trabalho/escola.

ENTRADA para o trabalho/escola de manhã (Sentido Tua – Bragança):
Mirandela: 07:59
Macedo de Cavaleiros: 06:16 / 09:16
Bragança: 08:16

ENTRADA para o trabalho/escola de manhã (Sentido Bragança – Tua):
Macedo de Cavaleiros: 06:52 / 09:17
Mirandela: 07:57

As chegadas a Mirandela davam-se num horário perto do ideal tanto para servir trabalhadores como estudantes, já que os primeiros entrariam ao serviço com um atraso ligeiro de até 5 minutos (se este começasse às 8 em ponto), e os estudantes tinham tempo para completar a sua viagem até à escola e entrar nas salas a tempo da primeira aula.
A chegada a Bragança era já um pouco tardia para trabalhadores (se entrando às 8 em ponto), mas no limiar para estudantes, a maior parte dos quais tinham a escola a escassas dezenas de metros da estação.
Para quem se quisesse deslocar a Macedo, não havia no entanto horários credíveis: a chegada dava-se mais de uma hora demasiado cedo, ou mais de uma hora demasiado tarde.

SAÍDA do trabalho/escola à tarde (Sentido Tua – Bragança):
Mirandela: 16:46 / 19:50
Macedo de Cavaleiros: 17:53 / 20:59

SAÍDA do trabalho/escola à tarde (Sentido Bragança – Tua):
Bragança: 15:00 / 19:40
Macedo de Cavaleiros: 16:41 / 21:34
Mirandela: 17:52

E é aqui que reside o modelo de asfixia da procura, partilhado de resto com várias linhas – até hoje!
As saídas de Mirandela davam-se, no sentido de Bragança, ou demasiado cedo tanto para trabalhadores como para estudantes, ou demasiado tarde para ambos. No sentido do Tua estaria razoavelmente bem para estudantes, mas cedo demais para trabalhadores.
Macedo de Cavaleiros estava a braços com semelhante situação: para o Tua os comboios passavam num horário demasiado cedo. Para Bragança os estudantes esperariam demais, e os trabalhadores não chegavam a tempo, sobrando-lhes apenas um estupidamente tardio nocturno.
O caso de Bragança, esse, atinge o auge da ignomínia: nenhum trabalhador ou estudante estaria sequer perto de conseguir voltar para casa às 3 da tarde, nem teria a paciência para esperar quase pela hora do noticiário da noite!

Estão expostas as lacunas que tornaram o comboio neste troço absolutamente desinteressante para as populações, que, ainda assim convém sublinhar, preferiam o comboio aos autocarros, dando à Linha do Tua nesse ano um total de 170 mil passageiros – contra os actuais 70 mil anuais, numa linha que ainda continua asfixiada.
O importante a reter é que por muito que os horários de um dos sentidos se coadunasse com as necessidades das populações, se os horários do sentido contrário não o fizessem então o comboio deixaria de ser uma opção viável – ninguém tira dois passes para o mesmo trajecto em transportes diferentes. Estava mais que lançado o triunfo da camionagem de passageiros na região.

Parte II

Daniel Conde – Movimento Cívico pela Linha do Tua