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Linha do Sabor em destaque “Sabor-Mamoré : viagem de comboio sobre o mar”

mamore_capa_DuarteBeloO auditório da Biblioteca Nacional recebe no próximo dia 17 de outubro, pelas 18.30, o lançamento do livro “Sabor-Mamoré : viagem de comboio sobre o mar” , de Duarte Belo.

A  apresentação da obra vai estar a cargo do historiador, e antigo director do Museu Nacional Ferroviário, Jorge Custódio, e pelo fotógrafo José Manuel Rodrigues. O livro divide-se entre dois continentes e é “ao mesmo tempo um livro de imagens sobre o território de duas ferrovias abandonadas e uma reflexão que nos transporta, entre uma e outra, num percurso de viagem imaginária.”

«Apanhar o comboio em Duas Igrejas, cais terminal da linha ferroviária do Sabor, nas proximidades de Miranda do Douro, no interior da Península Ibérica, em Trás-os-Montes.Atravessar o Planalto de Miranda e descer ao Pocinho, já na margem esquerda do Rio Douro. Embarcar neste cais fluvial até à foz do rio, no Porto. Depois, prosseguir viagem, via marítima, atravessar o oceano Atlântico, até à desembocadura do Amazonas. Subir este rio em cerca de 1000 quilómetros até à foz do rio Madeira e prosseguir rio acima por esse afluente do Amazonas, um dos seus maiores tributários, até Porto Velho, capital do Estado brasileiro da Rondonia, cais terminal da navegabilidade desse rio. Aí, apanhar novamente o comboio, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em direcção a Guajará-Mirim, já em território boliviano, no interior da América Latina, mais próximo do Oceano Pacífico do que do Atlântico, termo de viagem.

 

Sabor
A linha do Sabor era, seguramente, a mais periférica de toda a rede ferroviária nacional. Trás-os-Montes, em particular o Planalto de Miranda, é das regiões portuguesas de mais difícil acesso a partir de Lisboa ou do Porto. É hoje um território quase esquecido pelo Governo de Lisboa. Sob verões quentes e secos e invernos frios e rigorosos, o comboio atravessavauma paisagem em que é notório um forte carácter telúrico, e onde ainda encontramos algumas das mais bem preservadas paisagens arqueológicas, bem como rurais, que marcaram uma ciclicidade temporal que já não encontramos nas cidades. O último comboio a descer ao Pocinho partia de Duas Igrejas em 31 Julho de 1988. Era neste comboio que imaginava o início da viagem.

Madeira-Mamoré
A história desta linha férrea está estritamente relacionada com a própria história da borracha, e mesmo com as tentativas ou investidas tendentes a domar a floresta amazónica. Esta é também uma história da vontade humana e de um drama. O projecto da estrada ferroviária é concebido em 1861. Em 1872 é iniciada a construção, a cargo de uma empresa inglesa que, um ano mais tarde, rescinde o contrato devido à extensão e densidade da floresta e às condições da área onde eram frequentes os confrontos com os nativos da região e as epidemias abundavam. Em 1879 é retomada a construção por uma firma norte-americana que, pouco mais de um ano mais tarde, abandona a empreitada por se encontrar completamente falida. Estavam construídos sete quilómetros de ferrovia. A obra é reiniciada apenas em 1907, já após a assinatura do tratado de Petrópolis, em 1903, para ser concluída em 1912, numa extensão de 364 quilómetros, entre Porto Velho e Guajará-Mirim. Obra grandiosa, sonho que rapidamente se esvaneceu.»

Duarte Belo (Lisboa, 1968). Iniciou actividade como arquitecto e desde 1989 trabalha como fotógrafo. Tem levado a cabo um levantamento fotográfico sistemático da paisagem portuguesa, tendo publicado vários livros sobre o tempo e a forma do território português.
www.duartebelo.com

fonte: BN