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SISCOG, primeiros passos no Caminho de Ferro e internacionalização

247172_234940309853263_6510279_nA empresa portuguesa SISCOG, ligada ao sector ferroviário desde 1987, assinalou, em Agosto de 2013 os 20 anos da assinatura do seu primeiro contrato de fornecimento internacional com o operador holandês NS. Poucos sabem é que na génese das soluções de software  reconhecidas pela NS e outros operadores ferroviários europeus, para a planificação e gestão da operação ferroviária de equipas, horários e material circulante, está o caminho-de-ferro português da década de 80.

Nos anos 80 o sector ferroviário português era gerido verticalmente pela empresa pública Caminhos de Ferro Portugueses E.P. , com origem na estrutura da década de 50. Chamava a si as diferentes competências no sector, como a exploração, tração, via e obras, e oficinas.

A segunda metade da década de 80 do Séc XX iniciou um ciclo novo no setor ferroviário, e na CP. São por essa altura lançados  novos projetos.  Iniciam-se os estudos para a sinalização Sines-Abrantes no trajeto do carvão, a renovação da linha da Beira Alta, encerramento de troços e linhas de norte a sul do país, dá-se o fim do transporte de mercadorias a  retalho, inicia-se a redução de pessoal, e a separação da CP em exploração e infraestrutura. O que originou o atual figurino, o gestor REFER para a via e obras,  e a exploração, tração e oficinas no operador público Comboios de Portugal.

A SISCOG é constituída em Lisboa como empresa em 1986 por dois amigos. Numa altura em que a informática estava ainda pouco divulgada e difundida em Portugal. A SISCOG propunha-se então desenvolver soluções suportadas na Inteligência Artificial (IA) e Investigação Operacional. Em paralelo procurava oportunidades para definir o nicho de mercado, conceber  sistemas de alta qualidade, atuar a nível internacional, e desenvolver produtos ao invés de apenas prestar serviços.

O encontro de altos quadros da CP e responsáveis da empresa de software num seminário no início de 1987, e a oportunidade e perspetiva de otimização de recursos, eficiência e redução de custos, despoletou o interesse, e possibilitou a realização de um protótipo no domínio do “planeamento do pessoal circulante”.

254329_235217903158837_2944512_nO projeto do protótipo inicia-se em Janeiro de 1988. É escolhido o Depósito de Tração do Entroncamento por ser considerado um dos pontos mais complicados da rede. O objetivo passa então por desenvolver um sistema de geração automática de escalas para maquinistas, a ser replicado a toda a rede.

O protótipo é dado como concluído no início de 1989, e em março é assinado o contrato para desenvolver em 18 meses um sistema completo para planear turnos e escalas rotativas de pessoal.

O trabalho estende-se até 1991. Altura em que o sistema Escalas, nome assumido para o sistema, é dado como finalizado por parte da SISCOG. É ainda por essa altura iniciado o desenvolvimento de um outro sistema para planeamento e gestão designado por Depósitos. A colaboração no sistema Escalas continua, mas sem a implementação ao resto da rede. E a ligação entre as duas empresas termina em 1993.

Por um lado, a saída no início dos anos 90 do impulsionador do conceito e responsável pelo pelouro da informática no CG da CP. E no projeto, do chefe de equipa do sistema Escalas do lado da CP. A somar, fatores estruturais como a informática pouco vulgarizada, e a dificuldade na introdução de dados no sistema, como os vários tipos de horários com matriz em papel. E a um outro nível, a falta de iniciativa na implementação alargada do sistema por parte da gestão da CP, numa decisão estrutural. Tópicos com papel no esmorecer da aposta no sistema.

Do  lado da SISCOG a conjuntura apresenta também uma dado importante, em  1993 surge o  reconhecimento de um operador ferroviário internacional. Vai ser este o desafio que lança a empresa, e lhe reserva um papel global.

Entretanto, o ciclo 87/93 correspondeu aos quatro objetivos traçados aquando da constituição da SISCOG. Definiu o setor ferroviário como nicho de mercado, criou um produto para a planificação de turnos e escalas, o CREWS, e a internacionalização, que chegou através dos caminhos-de-ferro holandeses NS.

A definição do nicho de mercado e o saber ferroviário foi feito com a CP, uma estrutura pesada mas completa. Detinha o conhecimento e competência de um operador ferroviário global com Exploração, Via e Obras, Tracção, e Oficinas. Apresentou a operação ferroviária à normalização, e ao levantamento completo e exautivo de fatores de suporte da execução de escalas.  Forneceu o saber para extração ,  e a realidade para emulação de escalas.

O produto surge inicialmente com o protótipo de tripulações para a TAP, que despoletou posteriormente o projeto para a CP. A par do desenvolvimento do sistema para a CP, a SISCOG continua a aposta na criação de um software base, propriedade da empresa, que incorpora   ” o conhecimento sobre o processo de planeamento e geração de conceito de escalas “. O produto passa a ser designado por CREWS a partir de 1988 . Em paralelo aposta na continuação de investimento na internacionalização com participação em seminários e feiras fora de portas,  e mantem  canal aberto no contacto com potenciais clientes internacionais.

O primeiro contato dos caminhos-de-ferro holandeses (NS) com o trabalho da SISCOG surge a 12 de junho de 1991, com um telefonema madrugador para a sede da SISCOG atendido pela empregada da limpeza, mas que não impede o contato. O interesse materializou-se  depois de uma apresentação dos produtos  na Áustria em 1989, e do “mailling” que indicava a finalização do sistema Escalas em janeiro de 1991. O salto internacional com a NS acontece em agosto 1993, através  da assinatura do contrato para o desenvolvimento do sistema CREWS_NS. Segundo dados do ICEP, atual AICEP, o CREWS_NS foi o primeiro software português exportado.

Rede ferroviária holandesa

Rede ferroviária holandesa

Com sede em Utrecht, o operador ferroviário Nederlandse Spoorwegen (NS) surge em 1938, emprega cerca de 27000 pessoas, e opera numa rede de 2345 km. É o principal operador ferroviário  holandês, transporta mais de um milhão de passageiros por dia. O sistema da SISCOG apoia o planeamento de pessoal da subsidiária de passageiros da NS, a NS Raizigers, desde 1998. O software realiza o planeamento do trabalho diário de cerca de 6000 pessoas, entre maquinistas e revisores.

No virar de Século o processo Escalas, então denominado Escalas II, foi reativado entre a CP e a SISCOG. Em 1999 o projeto foi dado como terminado e aplicado a uma das unidades de negócio da CP. O sistema entrou em funcionamento no ano 2000, com suporte técnico por parte da SISCOG, e a intenção de ser replicado ao resto das unidades de negócio. O que, mais uma vez,  não se veio a verificar com  a SISCOG suspender o suporte técnico em 2001.

A SISCOG é uma empresa portuguesa que atua no planeamento e gestão  optimizado de recursos de empresas de transporte ferroviário e metropolitano, e detém uma carteira composta pela experiência nos caminhos-de-ferro da Holanda, Filândia, Dinamarca e Noruega, nos Comboios Suburbanos de Copenhaga, e nos metropolitanos de Londres e Lisboa. Trabalha com cerca de 117 colaboradores.

Rui Ribeiro