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As Histórias dos Cavalos de Ferro

carlos_02A publicação “As Histórias dos Cavalos de Ferro” de que falamos é o catálogo de uma exposição de fotografia de António Lopes. Esteve patente ao público no Arquivo Fotográfico de Lisboa entre Outubro e Novembro de 2001. Os negativos, capturados entre os anos de 1995 e 2001 num formato de 6 x 7, revelam texturas e paisagens de caminhos de ferro desactivados.

Este é o trabalho de um fotógrafo que desenvolveu um conceito em torno do caminho de ferro, mas onde, como abaixo podemos ver, aquele nem foi o tema inspirador. O que o motivou foi a estética que Emílio Biel, nas fotografias que fez ao caminho de ferro em finais do século XIX e inícios do século XX. Não é, pois, um trabalho de caminho de ferro em suporte fotográfico, como é usual ver-se e de que  falam os entusiastas dos comboios, é um trabalho de arte fotográfica com temática ferroviária.

O que teríamos para dizer sobre ele está muito melhor escrito logo na badana da capa:

“A filosofia estética deste projecto visa privilegiar um género de fotografia envolvente e contemplativa, ao mesmo tempo que funciona como registo histórico. Numa época em que a imagem solta e pouco formal se institucionalizou , procurou-se um formalismo provocatório, e próximo da forma como há mais de cem anos Emilio Biel fotografou os caminhos de ferro, o que só por si constitui uma mais valia estética interessante de observar nas imagens. Com o desenrolar do projecto juntaram-se a este formalismo caminhos mais pessoais, avançando para situações de pormenor dos equipamentos ou dos efeitos de luz, entre outras, De qualquer das formas mantiveram-se as ideias base onde cada linha, cada estação ou cada equipamento foi registado e apresentado em toda a sua dignidade omitindo propositadamente aspectos de degradação e de destruição que o tempo ou as pessoas se têm encarregado de efectivar.

Recorrendo a enquadramentos precisos, horizontais e despidos da presença humana, acentuou-se a ambiência deserta e abandonada dos locais, opção que simultaneamente nos reporta para a calma e isolamento desses sítios, no que naturalmente perpassa tristeza e desolação”

Emílio Biel, de origem alemã, iniciou-se na fotografia na década de 1870, na cidade do Porto. Entre as suas actividades comerciais contavam-se a fotografia e a edição. Ao juntar as duas tornou-se um dos maiores editores nacionais em fototipia. Sobre caminhos de ferro conhecem-se-lhe dois álbuns, um dedicado à linha do Douro e outro à da Beira Alta. Tive o prazer de contemplar apenas o primeiro e não tenho dúvidas em o colocar entre as melhores peças da iconografia dos caminhos ferro em Portugal. É a sensibilidade artística posta ao serviço da função ilustrativa e documental, próprias da fotografia no dealbar do século passado, potenciadas por um exímio domínio da técnica fotográfica. É de fazer cair os olhos.

António Lopes conseguiu, pela perspectiva retro, a qualidade da interpretação e o muito saber técnico, fazer um dos melhores trabalhos em imagem de inspiração ferroviária. “Histórias dos Cavalos de Ferro” é um álbum obrigatório para que gosta da estética ferroviária, um documento para quem estuda o caminho de ferro e um trabalho muito interessante para quem gosta de fotografia.

autor: Carlos Barbosa Ferreira